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Fonte Luminosa




















Radio Nacional de Angola

















Bambu


Rebentos de Bambú


Varandas do Liceu



























































Fabrica de Cerveja Ngola




































































 

Carta a um Chicoronho* ausente

Meu bom amigo/a

Bem sei que prometi escrever logo que regressasse do Lubango...

Podia dar-te mil razões para justificar o atraso, mas todas elas se resumem numa só: eu ainda não regressei do Lubango – apenas o meu corpo saiu de lá!

Como nota prévia, o aviso de que vai ser muito difícil imprimir a esta narrativa apenas a objectividade que deve caracterizar a escrita jornalística... Mesmo apelando à minha tarimba profissional, não garanto que consiga expurgar a enorme emotividade que revestiu todos os meus passos no Lubango!

Bem sei que era teu grande desejo integrar este grupo que foi ao Lubango; mas não pudeste. E não foi sequer por não teres frequentado o velho Liceu Diogo Cão ... A essência do espírito macongino contem a receita mágica para acolher no Reino de Maconge todos os que simplesmente sentem e amam aquela terra...

Em compensação pediste-me para prolongar por ti o meu olhar sobre a terra, sobre as coisas, sobre as pessoas...

Cumpri rigorosamente a promessa que então te fiz, na medida em que tudo o que vi, fotografei e filmei se destina a ti, meu amigo chicoronho lubanguense que deixaste a tua terra há cerca de três décadas...

No meu caso foram precisamente 27 anos, 7 meses e 7 dias o tempo que tive de esperar pelo instante em que o chamamento do Lubango se concretizou no toque suave das rodas do Antonov na pista do aeródromo da Mucanca.

Afinal o Lubango lá estava, à minha espera, com vestígios da chuva que caíra horas antes com intensidade. Como que limpando à pressa as lágrimas com que pretenderia retribuir as minhas...

Retenho desse momento sublime o recorte único da Chela, que mais uma vez me pareceu suspensa pelo Cristo-Rei, para o eterno amplexo que a une à cidade...

Depois, foi juntar um a um os cacos da alma até aí desfeita (perdoem-me a metáfora os amigos maconginos do Lubango, mas cada um deles era até aí um caco precioso da minha alma)...

E quantos cacos eu fui juntando nesse primeiro dia de exaltação! Na primeira passagem sôfrega pelas ruas do Lubango, a cada passo uma recordação, o reviver de episódios de uma outra vida...

É verdade que as ruas da cidade perderam a lisura do asfalto, que muitos passeios deixaram de o ser, que as paredes das casas reclamam por mais tinta, que o lixo passou a ser elemento da paisagem urbana... Mas que é tudo isso quando, como que por magia, tudo vemos através dos filtros da alma!...

Pude comprovar a capacidade da memória visual, identificando todos os pormenores da cidade que se mantiveram inalterados nos últimos 28 anos; pude comprovar igualmente a memória auditiva, identificando os sons da cidade (é indiscutível que cada cidade tem um ruído diferente…) e identificando os sons musicais dos pássaros que povoam as árvores e os telhados da cidade - é também única e por isso identificável, a sinfonia das aves em cada cidade e em cada recanto dos seus arredores…

Falta referir a capacidade da memória, talvez a mais impressiva de todas - a memória olfactiva. Como sabes, em finais de Janeiro atinge-se o cume da estação da chuva e do calor. Mesmo na temperatura amena dos verões huilanos é sempre gratificante a frescura que a chuva deixa no ar. Foi, pois, com prazer infantil que reproduzi os tempos em que virava a cara ao céu para receber directamente as fortes bátegas da chuva tropical. E depois, durante horas e horas, o deleite olfactivo! É impossível não reter na memória os cheiros da terra de África depois de uma chuvada! As memórias visual e auditiva podem desvanecer-se com o tempo; a memória olfactiva, essa permanece forte por toda a vida, creio eu. E creio também que assim acontece porque, enquanto as imagens e os sons podemos preservá-los em fotografia, em filme ou em gravação, os cheiros não podem nunca guardar-se em lado algum, a não ser na nossa memória!...

Passeei pela cidade sem qualquer constrangimento ou restrição... Vi, fotografei e filmei as fachadas das casas que tão bem conhecemos, hoje apenas com falta de tinta... calcorreei todas as ruas e voltei a deliciar-me com o rigor geométrico do seu traçado… cruzei-me com milhares de pessoas de semblantes tranquilos, diria mesmo alegres...

De resto o Lubango, a cidade que conhecemos como Sá da Bandeira, contraria em muito a regra de outras cidades angolanas, que sofreram na carne as terríveis consequências da guerra. Por exemplo, ao contrário da mártir Huambo, a antiga Nova Lisboa, que a guerra civil reduziu a escombros, o Lubango está lá todo, praticamente intacto. Pude reconhecer todas as ruas, praticamente cada uma das casas que desde a minha meninice vi edificar. Só não estão exactamente na mesma porque a insegurança gerada pela guerra obrigou a subir os muros e a gradear janelas e portas.

Nos momentos em que o enevoado dos meus olhos permitia não ver esses resquícios do sofrimento e do medo, então consegui rever as casas em que morei ou em que simplesmente entrei, tal como eram quando as deixei há cerca de 30 anos.

Sabias, meu amigo, que apesar de muitas delas terem sido rebaptizadas, as ruas do nosso Lubango ainda são conhecidas pelos seus antigos nomes, mesmo entre os moradores mais jovens? Lá está a Rua Pinheiro Chagas, a rua Principal ou Rua do Picadeiro! E, no entanto, ela agora chama-se oficialmente Rua Hoji Ya Henda. Experimentei em vários locais perguntar pela Rua Pinheiro Chagas, do Picadeiro ou Principal e mesmo os mais jovens a identificaram. E não aconteceu apenas com essa rua… Para mim isso comprova que identificamos as ruas, as casas, os objectos e as pessoas que amamos, mais do que com a memória, com os sentimentos. E – é importante que o diga porque o confirmei – o Lubango continua a inspirar o amor aos seus habitantes actuais, tanto quanto nos inspirou a nós…

Voltando à rua do Picadeiro… Lá está a Flórida, outrora resplandecente e cosmopolita, hoje apenas pragmática e funcional. Mesmo assim, a permitir respirar o ar da Flórida que nos inebriava nas tardes quentes de Dezembro como nas noites frias de Agosto…

Mais abaixo a Tirol, hoje transformada em restaurante requintado, não tão movimentada como quando era bar-restaurante, já que os preços continuam a determinar a selecção.

O Hotel Metrópole e o Novo Hotel, agora edifícios de habitação, permanecem no entanto, nas fachadas inalteradas, como elementos identificadores da Pinheiro Chagas. Assim como as Livrarias-Papelarias "Lello e Académica" , estas em pleno funcionamento, mesmo com prateleiras desguarnecidas.

É claro que ainda tens presente que a Rua Principal termina na então Praça dos Fundadores. Tem, naturalmente, outro nome, mas o enquadramento é exactamente o mesmo. Sobressai a Sé Catedral que sempre foi um dos pilares da iconografia angolana e não só da religiosa. Elegante, majestosa, permite recuar a memória a cerimónias marcantes como os Solenes Te Deum, o sepultamento do primeiro Bispo de Sá da Bandeira, D. Altino Ribeiro de Santana e a recepção do seu sucessor, D. Eurico Dias Nogueira, as procissões dirigidas pelo irreverente padre Geraldes, os inúmeros casamentos e baptizados celebrados pelo padre Moreira…

Ao lado do adro da Sé, a Fonte Luminosa já não é fonte e já não é luminosa… Mas lá está, querendo manter a dignidade da praça, como festiva taça de champanhe a que apenas falta o líquido…

Um pouco mais abaixo perto das traseiras da Sé, a Pérgola com as elegantes colunas pelas quais subiam trepadeiras floridas formando um aprazível alpendre. Uma das colunas tombara ao peso da planta e dos anos e parecia implorar que a erguêssemos de novo…

O vasto jardim prolonga-se até ao Parque Infantil que continua a cumprir, fiel e pacificamente a sua missão de acolher as brincadeiras das crianças. Tal como eu e muitos milhares de crianças ao longo de pelo menos seis décadas, muitas outras continuam a povoar diariamente aquele espaço, alternando o prazer da brincadeira em segurança com a observação dos macacos, papagaios, bambis e guelengues, que habitavam o pequeno zoológico, como que em antevisão dos animais que iríamos encontrar em liberdade no Bicuar, na Mupa ou no Iona, os santuários da vida selvagem no sul de Angola. Hoje a fauna ali representada é reduzida, com apenas alguns macacos a concentrar a atenção da miudagem. Os desenhos das universais figuras criadas por Walt Disney que coloriam as paredes, estão desbotados, a perder cor e simbologia. Mas, uma coisa é certa: para as dezenas de crianças que ali vi a brincar o Parque Infantil tem exactamente o mesmo encanto e magia que tinha para nós quando crianças também!

Mesmo ao lado do Parque Infantil lá continua a velha Escola Primaria nº 60 resplandecendo em pintura nova e festiva. Importa referir aqui que todas as escolas do Lubango foram alvo de cuidadosa recuperação, respondendo a uma das prioridades do governo angolano.

Logo a seguir a sede dos Bombeiros Voluntários, cujo edifício modelar é o único elemento a permitir recordar os tempos áureos da corporação quando o parque estava repleto de reluzentes viaturas, dispondo de um corpo activo garboso e bem preparado, até com uma banda de música, presença imprescindível nas festas e nas paradas. Naquele local, mesmo entre as paredes vazias, como não lembrar o seu principal obreiro, o Comandante Cardoso Soares, que dividia a paixão da sua vida entre a sua fábrica de velas – a Favel - e os seus Bombeiros Voluntários.

Três quarteirões acima detenho-me à frente do velho Cine-Teatro Odeon que foi o único cinema de Sá da Bandeira durante décadas, propriedade do empresário Fernando de Almeida, até ao aparecimento do Arco-Íris. As cinco grandes letras de cimento ainda lá estão no alto, a lembrar grandezas de outros tempos em que o dedicado Campos fazia girar as grandes bobinas para projectar as fitas que a censura permitia. A degradação evidente ainda deixa ver as duas portas amplas por onde passámos muitas vezes de borla, com a complacência dos porteiros que toda a cidade conhecia: o Cunha, o Trolaró… e os cubículos das bilheteiras com os guichés onde assomavam as caras bonitas da Gina, da Elsa, da Flora… Foi ali que duas gerações tiveram o primeiro contacto com o cinema e também com o teatro e com espectáculos de variedades, como então se dizia. Foi ali, no palco que ainda lá está, que actuaram os maiores artistas de língua portuguesa – Amália Rodrigues, Vasco Santana, Carlos do Carmo, João Vilaret, Ivone Silva, Hermínia Silva, Tonicha,  Tony de Matos,  Badaró, Ângela Maria, Octávio de Matos e tantos, tantos outros!

São apenas lembranças que uma fachada quase em ruínas, mesmo assim, permite reavivar. Tudo o resto nos remete para a realidade da actual utilização daquele espaço por uma seita religiosa…

Seguindo para poente a rua que se chamou Lobo das Neves e que era a mais longa do Lubango (tendo em conta que se prolonga para leste até ao Bairro João de Almeida e para oeste até à Senhora do Monte), passo junto à majestosa sede do Rádio Clube da Huíla, onde agora funciona a delegação provincial da Rádio Nacional de Angola. Como sabes, passei dezasseis anos dentro daquelas instalações, pelo que senti com emoção a visita detalhada aos estúdios e aos gabinetes onde produzi centenas de horas de programas, noticiários e reportagens. O essencial da geometria das divisões está inalterado e muita coisa ainda faz lembrar o saudoso Rádio Clube da Huíla, desde o grande mural da entrada, representando a fenda da Tundavala, até aos quadros e placards ainda patentes nos corredores. Mas adiante, porque não quero prender-te por muito tempo aos pormenores vincadamente pessoais…

Continuo a subir a Rua dr. Lobo das Neves e paro inevitavelmente na espaçosa Praça da República, que tu conheceste dominada pela estátua de Artur de Paiva. Naturalmente que o garboso oficial português já lá não está representado em pose marcial; resta o pedestal na praça calcetada à portuguesa com desenhos do brasão da cidade. Garantiram-me que muito brevemente a estátua será substituída por um busto do fundador da nacionalidade angolana, Agostinho Neto e que o velho emblema de Sá da Bandeira, que representava a Serra da Chela, também será arrancado da calçada, pedra-a-pedra.

De resto, lá estão a enquadrar a praça, os edifícios que bem conheceste: o Palácio do Governador, rodeado por um jardim muito bem cuidado, o Banco de Angola, a sede da Associação Comercial da Huíla, que hoje é a sede provincial do MPLA, o edifício dos serviços do Governo da Huíla, a sede do Sindicato dos Empregados do Comércio e Indústria, a funcionar como Centro de Saúde e no topo sul, o edifício inacabado do que seria um dos melhores cinemas de Angola, com o nome de Infante D. Henrique. No outro extremo da Praça da República o ainda moderno edifício dos Correios e Telecomunicações, à entrada da avenida que termina na histórica estação do Caminho de Ferro de Moçâmedes.

Continuando a subida da emblemática Avenida da Senhora do Monte é inevitável a referência ao Grande Hotel da Huíla, que foi considerado uma unidade de excelência, e não só no continente africano. Era referência obrigatória nos guias turísticos, incluindo o famoso Michelin. Com apenas dois pisos ocupando um vasto quarteirão, o Grande Hotel da Huíla, que foi criado em 1941, era propriedade do industrial Venâncio Guimarães Sobrinho e chegou a ter, depois de uma remodelação na década de 60, 104 quartos e 16 suites. Sempre privilegiou a qualidade do serviço, o atendimento personalizado e o requinte dos pormenores. Ainda hoje sei de pessoas em Portugal que recordam com certa vaidade pelo menos uma passagem pelo Grande Hotel da Huíla há cerca de 40 anos! Segundo se dizia, uma estadia naquele hotel justificava só por si uma deslocação a Sá da Bandeira, não tivessem a própria cidade e os seus arredores incontáveis pontos de atracção.

Claro que hoje não é tanto assim, se bem que, dentro dos novos parâmetros ainda seja perceptível a preocupação de manter um certo nível de excelência. De qualquer forma, o Grande Hotel da Huíla é ainda um dos ícones da cidade do Lubango e da província da Huíla e continua a ser referência nos roteiros turísticos de Angola que circulam pelo mundo.

Quase em frente ao Grande Hotel, mantendo a alegre cor de rosa nas paredes exteriores, a um tempo imponente e acolhedor, o velho Liceu Diogo Cão! Eu vi-o envolto num halo tão familiar mas tão etéreo que tive a sensação de lá ter andado não há 40 anos, mas sim numa outra encarnação… Mas a inscrição por cima da colunata da entrada trouxe-me de volta à realidade: no Lugar de “Liceu Diogo Cão” lê-se agora “Escola do Ensino de Base do II Nível – Mandume”.

No dia em que o visitei, decorriam ainda as férias grandes; dentro de dias abriria o período de matrículas para o novo ano lectivo. Por isso, contrastando com o bulício, às vezes tumultuoso que eu lhe conheci nos meus tempos de estudante, o velho Liceu estava silencioso… Não foi mau de todo, pois assim consegui sentir mais nitidamente as vozes de colegas e professores que ainda hoje ecoam impressivamente na minha memória. Cheguei mesmo a sentir o clima opressivo dos exames ao entrar nas salas em que os fiz. Estive no anfiteatro onde decorriam as aulas de Canto Coral, nos Laboratórios de Química e de Física que me pareceram ainda cheios da aterrorizadora figura do Mendonça das Forças mas, como então, amenizada pela lembrança do competente Venâncio Martins e do inefável Fortuna; na Biblioteca, que foi a primeira e mais valiosa fonte de conhecimento a que tive acesso regular; no Ginásio das aulas de Educação Física, dos espectáculos de encerramento do ano lectivo, das sessões solenes, dos bailes de finalistas e… dos angustiantes exames do 7º ano!

Claro que tenho de falar no Bambú (com direito a maiúscula, já que se trata do nome próprio de um local emblemático da vida estudantil de Sá da Bandeira)!… Lá está no centro do pátio interior, aquele tufo de bambus, o reduto masculino de onde milhares de rapazes, cigarro entre os dedos em pose bogartiana, olhavam as raparigas nos varandins, tentando espreita-las para cima dos joelhos que sobressaiam por entre as grades da varanda…

Acreditas que os pequenos rebentos de bambu, quando mastigados, conservam o mesmo sabor de há 40 anos?!

Deixando para trás aquele que foi o santuário da minha juventude e a fonte da minha aprendizagem do saber e da vida, sigo avenida acima. Fazendo esquina com a avenida que leva ao Bairro da Laje (cujo nome oficial era Bairro Camisão) lá está, qual arco-íris desbotado, isso mesmo, o Cinema Arco-Íris, então de tanto requinte, de tantos filmes. Desactivado, serve hoje outros fins como, por exemplo, os cultos de algumas igrejas que entretanto se instalaram em Angola. O único elemento identificador, para além da sugestiva fachada, é o bar-restaurante “Diplomata” que, pelo que me garantiram, funciona em pleno.

Um pequeno desvio até ao Bairro da Lage, para uma visita a outra das referências do ensino: a Escola Comercial e Industrial "Artur de Paiva", o exemplo incontestável da validade do ensino técnico. Uma escola que formou os muitos milhares de técnicos que foram, sem dúvida,  o principal pilar do desenvolvimento de Angola. Hoje já não é  assim: limita-se a ser a Escola de Base do III Nível "27 de Março".

Retomando a avenida da Senhora do Monte, outras referências: à direita o imponente edifício do Hospital, inaugurado no início da década de 70; a seguir, o Paço Episcopal que albergou o primeiro Bispo de Sá da Bandeira, D. Altino Ribeiro de Santana e logo a seguir D. Eurico Dias Nogueira e que agora é habitado por D. Zacarias Camuenho, o actual Bispo do Lubango; e à esquerda o que foi uma das unidades hoteleiras de maior prestígio, o Hotel Turismo, cuja piscina era um dos locais mais frequentados dos verões huilanos. Hoje é uma sombra decadente à espera do milagre do renascimento.

O átrio do Parque da Senhora do Monte era, como sabes, o largo com a estátua de João de Almeida. É claro que a estátua do governante português já lá não está, substituída pela figura estilizada de um escravo mostrando de braços erguidos uma corrente rebentada. A simbologia requer naturalmente a interpretação histórica e subjectiva de quem a contempla.

Nesse largo começa a grande recta que ainda hoje é palco das “3 Horas da Huila”, a prova de velocidade automóvel que, tal como nos apaixonava a nós, continua a fazer vibrar as multidões que em Agosto demandam a cidade para as Festas da Senhora do Monte.

Se o Lubango é um jardim, sem dúvida que o parque da Senhora do Monte é o seu canteiro mais florido e cuidado. São notáveis os esforços que as autoridades têm feito para manter o esplendor do local. Em vários pontos sem resultados visíveis, como é o caso do famoso Lago que há muitos anos está sem água, com o capim a sair em tufos dos interstícios das lajes. À sua volta os socalcos estão ainda floridos, como espectadores numa bancada a olhar para o palco triste e ressequido em que se transformou o lago, de alguma forma transmitindo com o colorido das flores a esperança - ou a certeza - de que aquele palco voltará um dia a ter vida plena!

A contrastar com a relativa penúria do parque, destaca-se agora um restaurante de luxo – o “Enigma”, convenientemente murado e encostado às bancadas do antigo campo de tiro que tinha o nome do Dr. Farrica. Ali se servem lautos almoços e jantares pagos preferencialmente em dólares. Paredes-meias, lá continua, bem tratado, o Estádio de Futebol, que se chamou oficialmente "Silvino Silvério Marques" mas que toda a gente chamava, tal como agora, o Estádio da Senhora do Monte.

Do lado oposto, subindo em patamares para o sopé da serra, passando junto ao arco de três alças que simboliza a Chela, atravesso o grande roseiral, onde respiro de novo a atmosfera de paz e de calma com que sempre o conheci. E a coroar todo este cenário de beleza, como grinalda refulgente, o Casino da Senhora do Monte.

Palco de muitas festas, banquetes e bailes de elite, é curioso constatar que agora o Casino faz jus ao seu nome, funcionando a sala de jogo na ala esquerda do grande salão. A ala direita mantém as funções e o aspecto do restaurante requintado que sempre foi.

Saindo do Casino, naturalmente que o destino só podia ser a famosa Capela construída pelos descendentes dos primeiros colonos madeirenses à semelhança da igreja do Funchal devotada a Nossa Senhora do Monte. No sopé, as árvores frondosas onde, na nossa juventude, nos deliciávamos a ver os macacos saltando de galho em galho. As árvores, hoje sem macacos, cercam o jardim e o pequeno parque que serve de patamar ao Jardim Botânico ou Estufa-Fria. Grande parte das espécies acabaram por murchar por falta de manutenção mas, na altura em que o visitei estava de novo vicejante, recuperado em resultado de uma inédita e bem  sucedida parceria entre as entidades oficiais e os empresários da cidade: cada empresário perfilhou um canteiro ou uma espécie botânica e custeia a sua manutenção!

Vencida a subida íngreme, a primeira paragem é obrigatoriamente junto à Esplanada-Capela, outro dos ícones da cidade, que o arquitecto Ludovice concebeu ainda nos anos 50 e onde, uma vez por ano, se celebra a missa campal após a procissão do 15 de Agosto, tradição que ainda hoje se mantém.

Talvez que a imagem mais representada do Lubango seja a da Capela da Senhora do Monte aninhada no costado da Chela, dominando toda a vasta bacia por onde se estende a cidade. Lá está inalterada, pintada, limpa e… aberta. É que – contaram-me – após os roubos e vandalismo de que foi alvo, a capela foi completamente esvaziada. Segundo diferentes versões, a imagem original da Senhora do Monte, que tinha vindo do Funchal, fora roubada, desconhecendo-se até hoje o seu paradeiro; segundo outros, a imagem foi transferida para uma igreja da cidade. Na verdade, constatei que a Igreja da Laje, em frente à Escola Industrial e Comercial, exibe com destaque uma imagem da Senhora do Monte, mas não consegui saber se se trata de uma réplica ou do próprio original.

Como sabes, o Parque da Senhora do Monte não se restringe ao Lago, ao Casino, ao Jardim Botânico e à Capela. É de notar que tem sido significativamente enriquecido com outras valências, para além daquelas que já lhe conhecíamos. O Estádio Municipal, de que falei atrás, continua a ostentar um relvado, tratado na medida do possível, palco ainda de emocionantes partidas de futebol, agora a contar para o “Girabola”, o campeonato nacional angolano.

De igual forma lá está o Pavilhão Gimnodesportivo, outrora palco dos renhidos quadrangulares de hóquei em patins, e sobretudo de basquetebol, em cuja vertente feminina o Benfica do Lubango chegou a guindar-se a campeão português… Pessoalmente guardo vívidas recordações dos relatos empolgados que então efectuei e dos espectáculos musicais e de variedades que apresentei, com artistas portugueses e angolanos que marcavam o nosso panorama artístico. Lembro Tonicha, Carlos do Carmo, Duo Ouro Negro…

Recordações indeléveis agora revividas, igualmente do recinto das Festas da Senhora do Monte, a entrada engalanada da Feira Agro-Pecuária, o local da Feira de Gado, das diversões em que pontificava o “quino” gritado através de roufenhos altifalantes; da Praça de Touros onde o aficionado Laureano concretizava anualmente a sua ribatejana paixão, trazendo da metrópole os touros e os toureiros…  Mas tudo isso conheceste há 30 anos! Passemos então às inovações no Parque de Nossa Senhora do Monte…

Para começar falo-te no empreendimento turístico bem enquadrado na parte intermédia do parque e que reúne excelentes condições para acolher o já significativo número de empresários, intelectuais e artistas nacionais e estrangeiros que visitam esta região privilegiada de Angola. Chama-se “Muhonguera Lodge” e pertence ao grupo angolano “Somintur”. É constituído por cerca de uma dezena de elegantes bungalows, espaços de restaurante e de lazer, tudo isto enquadrado numa área vedada dentro da qual vagueiam livremente pequenos mamíferos e algumas aves exóticas.

Outro novo empreendimento, que se deve inteiramente à iniciativa e a capitais privados, é o Kartódromo, construído junto ao Pavilhão Gimnodesportivo e solenemente inaugurado em 19 de Janeiro deste ano. Se, por um lado, o troar constante dos pequenos motores desvirtua as características de silêncio e quietude do Parque, por outro lado é um facto que os treinos ou as provas são poderosos atractivos para as muitas dezenas de jovens que, em tempo de férias escolares, tem ali uma saudável fonte de emoção e de prazer.

Logo a seguir ao Circuito localiza-se a sede do Reino de Maconge, o tal “Reino de Fantasia” nascido no então Liceu Diogo Cão. Trata-se de um edifício térreo de linhas modernas, perfeitamente enquadrado na paisagem envolvente. Um grande salão com um palco funcional e as divisões de apoio, incluindo as sanitárias. Foi inteiramente projectado e construído pelos maconginos que residem no Lubango, com uma pequena contribuição monetária do grupo de Portugal em que me incluo. A inauguração solene, em 18 de Janeiro de 2003, foi presidida pelo Vice-Rei de Maconge, D. Olavo I e contou com a presença dos maconginos Kundy Payhama, ministro da Defesa de Angola, e José Ramos da Cruz, Governador da Huíla,. Foi no dia seguinte - 19 de Janeiro, o feriado municipal – o palco da Ceia Nacional de Maconge que reuniu mais de uma centena de maconginos.

Não atendendo à descontinuidade do percurso em que te conduzo, dou agora um salto de um extremo ao outro da cidade. Vamos ao local dos Barracoes, ainda hoje assim designado e que, tal como antigamente, é o palco principal das comemorações do 19 de Janeiro. Continua a ser, como te disse, o feriado municipal, designado por “Dia da Fundação do Lubango”. Ali, de alguma forma se presta homenagem aos colonos, cujo pequeno cemitério encontrei perfeitamente cuidado, para receber a cerimónia de exaltação do espírito académico, que é a romagem à campa do Mendonça das Forças, o professor que encarnou a faceta mais boémia da vida estudantil da Huíla.

O obelisco evocativo da chegada dos primeiros colonos àquele local, a pequena capela, o altar debaixo da grande e isolada mulemba, e uma escola do primeiro nível de paredes reluzentes, constituem o equipamento essencial do recinto, à volta do qual se espalham nestes dias as tendas e as tascas aonde aflui grande número de foliões.

Algumas das Estátuas Portuguesas estão recolhidas no quintal  da casa onde funciona o Museu da Huíla, mas garantiram-me a intenção de as colocarem oportunamente a ladear a avenida que será construída da estrada do aeroporto ao largo dos Barracões. Mais do que uma medida prática, ela traduzirá um gesto de reconciliação e de apreço pela história, que não deixa de nos sensibilizar.

Podia deter-me em centenas de recantos que, no seu conjunto, moldam a cidade única que tão bem conhecemos e que certamente te fariam despertar recordações de episódios marcantes da nossa meninice ou adolescência. Mas a narrativa pode ganhar com um salto para distâncias maiores, para lugares e paisagens tão ou mais marcantes que aquelas.

Inevitavelmente levo-te à Tundavala, percorrendo a estrada que palmilhámos metro a metro em passeios de aventura e de indizível prazer, quando sentíamos que a vida atingia a plenitude a cada simples inspiração daquele ar tão puro!

Pelo caminho detenho-me um pouco na fábrica da cerveja N’Gola, nascida para confrontar os dois grandes potentados da indústria cervejeira de Angola - a Cuca e a Nocal. Como sabemos, na prática esse desiderato foi alcançado, se bem que apenas no espaço regional, que absorvia quase toda a produção. Mas é legítimo projectar em futuro próximo essa real concorrência: a manter-se o ritmo de crescimento que então se registava, teria sido possível partilhar um considerável quinhão do bolo nacional detido pelas duas marcas pioneiras. Hoje, naturalmente modernizada, a N’Gola continua a preencher a sua quota de mercado da cerveja nacional, preferida onde é possível o confronto com as restantes, sobretudo pela leveza e pelo sabor que lhes são conferidos pela inigualável água da Chela.

Características da água que agora enriquecem igualmente a multinacional americana Coca-Cola que se produz numa modelar unidade industrial situada logo a seguir à N’Gola e cuja produção, que ronda os máximos possíveis, é igualmente absorvida quase por inteiro pelo consumo regional.

Em reforço da tese que atribui à qualidade da água o grande sucesso dos dois produtos referidos, importa assinalar que a água da Chela é engarrafada numa moderna unidade industrial situada próximo da fazenda Jamba, a caminho da Humpata, e cuja produção é igualmente disputada pelas outras regiões angolanas, nomeadamente a de Luanda, onde se consome maioritariamente água de rótulo estrangeiro apenas porque a produção da Água da Chela é insuficiente para satisfazer a procura.

Desviei-me momentaneamente da rota da Tundavala, a que regresso agora, ainda para falar de água e na represa que abastece a cidade do Lubango. Foi na altura da sua inauguração, ainda nos anos sessenta, o nó górdio do problema que então se punha – o esgotamento dos caudais da Senhora do Monte e da Mapunda, tornando precário o abastecimento da cidade, que então conhecia mais uma explosão demográfica. Ainda hoje lá permanece, de água límpida, o lago-reservatorio que dá de beber à grande urbe.

Continuo pela estrada de terra batida mas de piso impecável. Percurso que obriga a paragens frequentes, quer para apreciar mais uma vez e captar em fotografia as paisagens únicas, quer apenas para colher os irresistíveis mirangolos, o rubro fruto silvestre que marcou indelevelmente os sabores e os odores da nossa juventude, assim como os reluzentes tabaibos cujos espinhos manejávamos com perícia, vencendo a resistência que os separavam das nossas bocas sequiosas… Hoje ainda fui capaz de me lembrar da técnica de descascar o tabaibo sem me picar; mas não fui capaz de evitar o desarranjo intestinal que resulta do facto de ter comido o fruto quente e… de já não ter 15 anos!... Mas adiante…

Finalmente na ante-câmara do cenário que eu espero me surpreenda ainda, apesar de o reter na memória, palmo-a-palmo!

As Ruínas de Pompeia constituem um dos mais curiosos caprichos da Natureza e lá estão, perfeitamente intactas: como obra-prima da Natureza, não há força humana capaz de a destruir e por isso as enormes rochas equilibradas umas sobre as outras mantêm a aparência de uma antiga cidade romana que, qual Pompeia, tenha ficado em escombros…

Logo a seguir termina a subida e à minha frente estende-se o largo planalto, cortado abruptamente num precipício de centenas de metros. Com o céu límpido como hoje o encontrei, vê-se nitidamente, quilómetros lá em baixo, a antiga Vila Arriaga, hoje cidade da Bibala. Do lado direito, uma qualquer força sobre-humana tentou abrir sem sucesso a rocha granítica, daí resultando a fenda impressionante que continua a ser divulgada por todo o mundo em postais turísticos, sem dúvida dos motivos mais fotografados em toda a Angola. Hoje como há 30 anos, a nenhuma das centenas de pessoas que lá acompanhei observei outra reacção que não fosse o silêncio reverencial, o respeito infinito pela Natureza e pela Sua obra. Hoje voltei a deliciar-me com essa reacção comungada por todo o grupo, mesmo sabendo que todos conheceram bem aquele local.

As Ruínas de Pompeia e o grande precipício com a caprichosa Fenda, seriam motivos mais do que suficientes para fazer da Tundavala uma estrutura natural das mais impressionantes do Mundo; mas, como sabes, existem outras maravilhas naquele recanto privilegiado. Refiro-me, naturalmente, à Cascata de água cristalina, que vai em córregos de queda em queda, culminando na cascata maior e na pequena lagoa de água tão límpida e tão fresca, borbulhando entre as rochas num murmúrio que eu sempre interpretei como uma súplica para que a bebêssemos… Era – e é – uma pequena praia recatada que convidava a prolongados pic-nics familiares, como convidava a furtivos e escaldantes encontros amorosos…

Por ironia – ou talvez não… - a única estrutura destruída na Tundavala é o Pavilhão Rústico junto à cascata. Foi um requintado restaurante, bar e ponto de apoio, o único em toda aquela zona e era considerada uma estrutura perfeita porque, para além da funcionalidade, estava primorosamente inserida na paisagem. Hoje apenas tem de pé as paredes graníticas. Tudo o resto sucumbiu à fúria da guerra fratricida que também atingiu a Huíla.

Ouvi promessas de que muito brevemente o Pavilhão Rústico será reconstruído mantendo a traça original, naturalmente que com recurso prioritário à madeira angolana, de modo a recuperar a sua rusticidade. Só então, uma vez refeita a paisagem, será possível não associar aquele local paradisíaco, a todo o horror e sofrimento que a guerra civil trouxe a Angola.

Existe apenas um outro “memorial” dessa guerra, esse na baixa citadina: o Hotel Imperio, fronteiro ao edifício da Sonyhuila, que foi sede da UNITA, ostenta as paredes esburacadas pelas balas e obuses disparados pelas forças do MPLA, durante o confronto que terminou com a fuga dos guerrilheiros de Savimbi. Um dia será também reconstruído o edifício e extinguir-se-ão de vez os ecos da guerra. Até porque nos dias que correm, a convivência entre os irmãos então desavindos é já um facto, comprovado pela existência das representações, também no Lubango, dos dois partidos vencidos.

Como sempre, uma ida à Tundavala requer depois uma pausa para reflexão e descanso. Porque a magnífica visão desperta questões metafísicas e até religiosas e também porque – é consabido – se a caminhada por aquelas paisagens cansa o corpo, as emoções também cansam o espírito e a memória… A subida à Chela ficou, pois, para outro dia.

A estrada da serra que começa no Parque da Senhora do Monte e termina na cidade do Namibe foi recentemente reparada e o seu piso favorece uma subida suave. Não pude deixar de lembrar a intensa rivalidade entre as duas cidades que se manifestava nas grandes realizações, como nos pormenores mais comezinhos, como este: exactamente no início da subida existia uma placa de sinalização rodoviária que dizia: “Moçâmedes, 200 Km”. Um dia um grupo de estudantes irreverentes em que eu me incluía, tratou de trocar a placa por uma outra em que se lia: “Praia, 200 Km”. A intenção era ferir o orgulho moçamedense reduzindo a cidade à condição de praia privativa de Sá da Bandeira… É claro que a placa não durou ali muito tempo…

Na realidade aquela estrada não existia nem existe hoje apenas para fazer a ligação rodoviária a Moçâmedes, hoje cidade do Namibe. O seu percurso impõe ao visitante inúmeras paragens em pontos que são outras tantas referências, quer das belezas naturais quer das realizações humanas que enriquecem aquela região.

A paragem no miradouro, de que se divisa toda a cidade do lado poente, pode ficar para depois. Agora a primeira paragem é na chamada Ponta do Lubango, dominada pela estátua do Cristo-Rei. Tento esquecer que aquele local emblemático foi palco e alvo de bombardeamentos ainda recentes, em que, durante anos, os tiros substituíram os beijos dos casais furtivos, o troar dos canhões substituiu o arrulhar dos namorados…

Impávida e serena, como sempre, lá está de braços abertos a estátua de Cristo-Rei, inspirada na de Almada, mas a que a arte e a técnica do inesquecível engenheiro Frazão Sardinha souberam dar um ar diferente, que alguns ousaram classificar de “africano”… Como testemunho dos conflitos a que assistiu, apenas há a lamentar a perda do nariz da estátua, que se pensa mais tarde submeter a cirurgia reconstrutiva… Claro que não dei crédito a algumas vozes brincalhonas, que associavam a perda do nariz aos cheiros menos agradáveis que subiriam da cidade e que eu, naturalmente, não notei…

A estátua no seu pedestal dentro do muro em forma de coroa é por si só atracção bastante para tornar a Ponta do Lubango uma referência turística. Mas sem dúvida, o que ali leva o visitante é a visão magnífica de toda a cidade. É indizível o prazer que sentimos, quando, sentados numa rocha, deixamos espraiar o olhar pela vastidão da grande bacia em que se aninha a cidade. O ar límpido do fim das tardes do Lubango funciona como que uma lente de aumento deixando ver dezenas de quilómetros, desde o ondular da Chela para os lados da Tundavala, até aos confins do interior, a imensa planície a nascente. Como numa maqueta feita com rigor, identifico um a um todos os pontos em que a cidade me conta uma história, me lembra um episódio, fazendo deslizar como num filme a minha própria biografia. Com que nitidez distingo a Escola 61 junto ao Hospital Central, o Liceu Diogo Cão, o Rádio Clube, a Sé Catedral, o velho Cine Teatro Odeon e o novo Arco-Íris, o aeroporto da Mucanca e, mesmo a meus pés, a moderna estação do Caminho de Ferro de Moçâmedes, que lembro como ponto de chegada e de partida de tantas aventuras pelo interior. Hoje só dali parte um comboio diário para a Matala, já que a ferrovia foi drasticamente maltratada durante os conflitos e o material circulante ainda não foi renovado.

A ida à Ponta do Lubango sempre foi aconselhável da parte da tarde, sobretudo para permitir apreciar dali o inesquecível Pôr do Sol. Mesmo nas tardes de chuva a deslumbrante bola de fogo desce suavemente no horizonte para além dos contrafortes da Chela, tão suavemente que nos transmite a sensação pungente, mas esplendorosa, de uma despedida breve. Como a apoteose de um espectáculo grandioso no palco feérico do universo!

Logo que o Sol se esconde começa um outro espectáculo: à medida em que escurece acendem as luzes das ruas e das casas e toda a cidade parece ficar a flutuar num manto de luz! Bem… essa é a lembrança que eu tinha, porque a realidade não é hoje assim tão luminosa… É que a guerra e o desgaste do material tornaram a energia eléctrica um bem escasso e imprevisível. A Barragem da Matala está a pedir urgente renovação, o que se diz estar nas prioridades do governo angolano.

Digeridas as fortes emoções numa noite de sono tranquilo o dia seguinte leva-nos a nova subida da Chela. O destino ainda não é desta vez a cidade do Namibe, já que, como sabes, há um sem número de atractivos naturais e construídos, que importa actualizar na memória. Dispenso desta vez uma ida à Palanca e paro na Jamba, a obra que o velho Maximino legou e que os seus filhos continuam, como alfobre indispensável no sul de Angola. O gado, o leite e as flores continuam a ser produtos de referência.

Referência é também, sem dúvida, a Escola Agrícola do Tchivinguiro que mantém o nome do pedagogo português dr. Francisco Machado bem visível na fachada impecável e característica. Mesmo na altura das férias em que a visitei, não custa imaginar as centenas de estudantes – os charruas - que agora a povoam, sucessores dos muitos milhares que lá se formaram, inicialmente como “Regentes Agrícolas” e já na década de 70 como “Engenheiros Técnicos Agrários”, a designação que ainda hoje se mantém.

É reconfortante constatar que uma instituição de tantos pergaminhos, que formou milhares de técnicos que ajudaram a fazer crescer Angola num dos sectores social e economicamente mais sensíveis, continua com o prestígio e as tradições que a tornaram famosa.

Não longe das vastas planícies cultivadas da Escola fica a Leba, uma das mais majestosas fatias da Serra da Chela, um contraforte aparentemente intransponível que separa as planícies do Namibe dos férteis planaltos da Humpata, Palanca e da Huíla.

Inevitavelmente perante a imponência daquela Serra as questões tradicionais voltam ao nosso espírito: como foi possível, no século XIX, um punhado de madeirenses ter escalado aquelas encostas com meia dúzia de carroças puxadas por bois?  Qual terá sido o preço em vidas humanas de tal empreendimento?

O certo é que foi conseguido e esse feito, a par com a travessia do deserto de Moçâmedes, constituiu a parte mais dramática do nascimento do Lubango!

Desde essa altura e até ao início da década de 70, a transposição da Chela era feita mais a norte, pela garganta da Chela, por uma estrada quase paralela ao Caminho de Ferro e que passava por dentro de Vila Arriaga. Tinha uma extensão de 221 quilómetros, a maior parte em terra-batida e praticamente sem obras de arte, o que significava ter de atravessar linhas de água que na época das chuvas se transformavam em rios caudalosos e lanços muito íngremes sujeitos a deslizamento de terras. Aquele percurso que na época seca demorava de carro de 3 a 4 horas, na estação das chuvas chegava a demorar um dia inteiro e às vezes mais…

Em meados da década de 60 iniciaram-se os estudos para a construção de uma nova estrada, tendo-se colocado nessa altura três hipóteses de traçado: a primeira era o aproveitamento do traçado actual (221 Km); a segunda, Moçâmedes - Cainde -  Capangombe - Chibia - Sá da Bandeira, um itinerário mais longo (264 Km), mas que tinha a vantagem de contornar a Serra da Chela, entrando em Sá da Bandeira pelo Sul; e finalmente o traçado da Leba (175 Km) mais curto mas muito mais íngreme.

A decisão, baseada em estudos de custos de construção e de utilização, foi tomada em finais da década de 60 pela Junta Autónoma de Estradas, então presidida pelo engenheiro Rego Cabral. Foi escolhida a solução mais económica, se bem que a mais pesada em termos de investimento inicial,  que no entanto viria a ser largamente compensado pelas diferenças do custo unitário de transporte no percurso total.

A obra, adjudicada à firma portuguesa Lourenços Lda, e dirigida pelos engenheiros da Junta Autónoma de Estradas, viria a ser uma das realizações mais emblemáticas de Angola. Incluindo seis lacetes construídos dentro das normas usadas nos Alpes suíços, o lanço apresenta 20 Km serpenteados, a cobrir uma extensão que em linha recta é inferior a 7 Km. O desnível entre esses dois pontos é de 1000 metros. Nunca até aí fora construído um troço de estrada tão caro: mais de 3 mil contos por quilómetro!

Enquanto profissional do Rádio Clube da Huíla acompanhei a par-e-passo a construção da estrada da Leba e entrevistei dezenas de técnicos estrangeiros que ali iam estudar as soluções inéditas, que aliás figuram ainda hoje nos compêndios de engenharia de estradas da maior parte dos países desenvolvidos. E registava com orgulho as expressões entusiásticas dos entrevistados.

Foi ainda um pouco desse orgulho que senti 30 anos depois da sua abertura, ao percorrer aqueles 20 Km!

É impossível não ficar algumas horas sentado no miradouro natural em frente daquela serpente rodoviária e deixar que o olhar abrace toda a Chela até aos difusos contornos setentrionais. Espraiar o olhar para poente e saltar de morro em morro até ao início da planície deserta do Namibe. E relembrar as lendas do Morro Maluco, a protuberância fálica rompendo o hímen das nuvens e que constitui a referência visual mais marcante daquela paisagem única!

Quase sem consciência de que o dia se esvai, sou surpreendido pelo mais majestoso dos espectáculos da natureza naquele local: o pôr de Sol na Leba é indescritível! Não há palavras, nem fotografias ou filmes que possam traduzir a luz, as cores, os matizes e os recortes da bola de fogo que se deita de mansinho por trás dos montes, na sua cama do deserto que se adivinha mesmo ali!

 

É evidente que muito fica por referir neste relato do regresso às origens, 30 anos depois da saída intempestiva. Há muitos recantos e recordações que não visitei e revivi por falta de tempo ou de disponibilidade anímica. Como há outros que revisitei e aqui não refiro, não porque os desvalorize, mas pela consciência de que seria preciso muito mais tempo e muito mais espaço. Incluo nestes as povoações e os arredores, que fazem parte da moldura do Lubango. Guardo para mim as impressivas recordações das cascatas da Huíla e da Hunguéria, da Chibia, Bicuar, Caculevar, Tchimbolelo, do deserto e da cidade do Namibe, assim como de pequenas sanzalas onde, nos idos da adolescência, aprendi a conhecer a forma e a cultura mais genuína do povo angolano, com quem partilhei os inesquecíveis sabores do pirão, da carne e do peixe seco, comidos à mão depois de mergulhados com os dedos no óleo de palma; que me ensinou os segredos dos frutos silvestres e dos sabores que a minha memória guarda intactos – matipa-tipa, mirangolo, tabaibo, manga, pitanga, nôcha, maboque, makua

E pronto.

Se, por momentos, consegui reanimar os teus sentidos e transportar a tua memória para estes cheiros, para estes locais e estas paisagens, então esta carta é para ti, meu irmão!

Com a certeza de que o Lubango, nossa Mãe, lá estará sempre à nossa espera preservando intactas as nossas recordações.

Diamantino Pereira Monteiro

Soure, Coimbra - Outubro 2005


*Nota: Chicoronho - Nome por que eram tratados os habitantes do Lubango no período colonial. Corruptela da expressão [senhor colono]... [sô colono]... [chiô corono]...[chocronho]...

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