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FUNDAÇÃO DA
COLÓNIA DE SÁ DA BANDEIRA
A história de Sá da
Bandeira começa naquele dia em que D. José da Câmara Leme viu estender-se
ante os seus olhos maravilhados o Vale do Lubango.

Vinha o então
Condutor de Obras Públicas Câmara Leme a realizar o seu plano de escalar
a serra com uma estrada que encurtasse o trajecto entre Moçâmedes e a
Huíla, fugindo às invencíveis dificuldades do acesso ao Planalto pelas
portas difíceis do Bruco.
O Vale do Lubango era um
paraíso encantado após as securas do deserto do Namibe e as dificuldades
tremendas dos precipícios da Chela terrivelmente enrugada. Encontrar
agua límpida correndo a sorrir por entre a vegetação viçosa duma bacia
hidrográfica abrigada das ventanias pela protecção da serra devia ser
para Câmara Leme a sensação mais forte da sua vida. Cresceu-lhe o
entusiasmo no peito. Começou a desenhar-se-lhe "um sonho portentoso na
fantasia ardente". Com 28 anos de idade punha nos seus pensamentos todo
o ardor e entusiasmo da juventude e todo o patriotismo da sua alma
dedicada ao engrandecimento de Portugal.
Andava em curso a
pacificação do Sul de Angola, cobiçado por nações estrangeiras vizinhas
que procuravam lançar nas terras de Angola as sementes da discórdia e da
traição quase descarada. Já então a glória começava a nimbar a figura
heróica de Artur de Paiva. Estavam em curso diversas tentativas de
povoamento dirigido, nomeadamente na Huíla, Humpata. Palanca e Bibala.
Tratava-se de implantar uma nova povoação nas terras desabitadas do
Lubango. E logo pensou na sua terra natal - a Madeira.
Escreveu ao
Governador-Geral Ferreira do Amaral, dando conta do sonho que lhe
empolgava a alma. Chegara a uma região maravilhosa para a agricultura.
Havia abundância de água para irrigação. Os terrenos eram férteis. O
clima apresentava-se duma amenidade incomparável. As serranias bem
arborizadas faziam-lhe lembrar a remota Madeira. Todo o conjunto da
região parecia-lhe um pedaço das costas mediterrânicas. A ilha da
Madeira, superpovoada, poderia fornecer os primeiros contingentes de
povoadores. Seria mais uma bela povoação portuguesa em África, uma
povoação de grande futuro!
A ideia encontrara o
melhor acolhimento da parte do Governo-Geral. Vinha até ao encontro da
preocupação governamental de contrabalançar os contingentes boers,
emigrados da África da Sul para as terras planálticas da Huíla, com
elementos lusitanos que imprimiriam o carácter português às novas
povoações. Mas o Governador-Geral lamentava não poder fazer nada para a
concretização do sonho daquele funcionário patrioticamente empenhado. A
ideia exposta ultrapassava os limites da administração do Governo-Geral.
Era da competência do Ministro do Ultramar. Só em Lisboa se podia gizar
o projecto dessa povoação por envolver outras parcelas do territ6rio
português, que teriam de recrutar povoadores para o Lubango. 0 Governo
de Angola. embora visse perfeitamente a viabilidade do projecto, nada
podia fazer para a sua realização. Não tinha meios nem poderes.
Era o primeiro obstáculo
que se erguia contra o sonho de D. José da Câmara Leme. Mas o ilustre
funcionário não era homem que desanimasse às primeiras dificuldades. A
resposta do Governo-Gcral de Angola só vinha fortificar a sua ideia,
pois, no fundo, apoiava a seu projecto. E o simples condutor de Obras
Públicas ao serviço do Distrito de Moçâmedes, de área vastíssima e
desconhecida, resolve poder o que não podia o mais alto magistrado de
Angola.
Alegaria a necessidade
duma licença graciosa para retemperar a saúde após a realização do seu
projecto de vencer a serrania com uma estrada directa à povoação da
Huíla. Não teria vencimentos durante uns meses. Mas a concretização do
seu sonho de engrandecimento da Pátria valia bem todos os sacrifícios. O
mérito alcançado com a construção da rodovia levada a efeito seria com
certeza considerado para deferimento da sua petição, que era justa. Não
se enganou nos seus prognósticos. Obteve a graciosa sem vencimentos,
como era hábito então.
Partiu para Lisboa,
depois de novamente expor oralmente o seu sonho ao Governo-Geral. que o
continuava a encarar com o mesmo carinho impotente, sem meios nem
competência legislativa que lhe permitissem torná-lo realidade. Era
indispensável transporta-lo ao Governo Central e acompanhar de perto o
resultado de todas as diligências.
Chegado à Capital da
Nação, Câmara Leme bateu às portas do Ministério da Marinha e Ultramar,
cuja pasta era então sobraçada pelo grande escritor e jornalista.
orador, dramaturgo e historiador Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, no
último Ministério sob a presidência de Fontes Pereira de Melo. Pinheiro
Chagas dedicava ao Ultramar todo o seu carinho e inteligência. Durante
os dois anos do seu Ministério, conseguiu estabelecer comunicações
telegráficas por cabo submarino entre a Metrópole e Angola; iniciar a
construção dos caminhos de ferro de Luanda; criar os serviços de
abastecimento de agua a Luanda: desenvolver o povoamento do interior do
Distrito de Moçâmedes - Planalto da Huíla; criar o Distrito do Congo e
estabelecer a navegação fluvial do Zaire, além de obras semelhantes nas
outras Províncias Ultramarinas. Era realmente o Ministro de que
precisava Câmara Leme.
Não lhe foi difícil expor
o sonho que lhe enchia a alma. O seu entusiasmo sugeria-lhe palavras
eloquentes capazes de empolgar a mente do Ministro tão profundamente
empenhado na obra de valorização do Planalto da Huíla.Conseguiu com
relativa facilidade o instrumento legal que criava, no Lubango, a
"Colónia de Sá da Bandeira". Mas imputava-se também a Câmara Leme a
responsabilidade de recrutamento, na Madeira, dos elementos da nova
“colónia" e a direcção da sua instalação nas promissoras terras da
Huíla.
Dificuldades encontrou-as
Câmara Leme no Funchal para recrutamento da gente que precisava. As
entidades oficiais não lhe prestavam a colaboração leal, que esperava.
Por isso não pôde escolher os elementos que desejava. Teve de se
contentar com os que lhe deram. Mas não desanimou. Tomou conscientemente
sobre os seus ombros o pesado encargo de desbravar as almas e de formar
agricultores de homens e mulheres que de lavoura nada ou quase nada
conheciam. Já se acostumara em Angola ao ensino de hábitos de trabalho a
inteligências mais rudes e viciadas. Todos dispunham de braços e corpos
sadios para o trabalho.
Forneceram-lhe as verbas
indispensáveis para a compra de ferramentas e aquisição das sementes e
plantas que tencionava aclimatar. Sabia, por conhecimento pessoal, que a
Missão da Huíla sob a orientação do Padre José Maria Antunes. estava a
realizar valiosíssimas experiências no campo agrícola. Era um importante
ponto de apoio para a sua iniciativa. Daquele Missionário e dos seus
colaboradores esperava Câmara Leme não apenas assistência religiosa da
nova povoação mas também a prestimosa colaboração agro-pecuária. que
evidentemente lhe foi prestada pelo Superior daquela Missão, no qual
ardia o mesmo espirito de pioneiro e de patriota.
Com 222 colonos, com as
alfaias agrícolas que pôde adquirir e com as sementes e espécies
vegetais que lhe pareceram mais adequadas, embarcou D. José da Câmara
Leme no transporte «Índia». que os deixou em Moçâmedes em Novembro de
1884.
O Governador de Moçâmedes,
Sebastião Nunes da Mata, conforme as ordens emanadas do Governo-Geral,
deu-lhe as instruções e a orientação indispensáveis para a realização do
seu projecto. A travessia do Deserto e a subida da serra foi uma
epopeia, em que o Director teve de evidenciar todas as qualidades de
chefia e de autoridade.
Chegados ao Lubango nas
vésperas do Natal, meteram ombros à tarefa urgente de criar uma povoação
próspera e desenvolver condições de vida na selva que começaram a
desbravar com denodo.
Em menos de trinta dias
realizaram os trabalhos indispensáveis para fazer a inauguração oficial
da "Colónia de Sá da Bandeira", em 19 de Janeiro de 1885.
Em 18 de Junho deste
mesmo ano embarcou no transporte "África" novo contingente de colonos,
cuja selecção já obedeceu a melhor critério. Esta segunda leva de
madeirenses chegou ao Lubango exactamente no dia 19 de Agosto de 1885,
perfazendo, nesse ano o número global de 428 pessoas.
Os colonos madeirenses
instalaram-se no Lubango para se arreigarem definitivamente à terra com
todas as tradições e riqueza humana do seu berço natal. Não foi
vertiginoso, mas foi seguro o crescimento de Sá da Bandeira que em 1889
era elevada a sede do concelho do Lubango. Em 15 de Janeiro de 1891,
reunia a sua primeira Câmara Municipal, sendo eleito seu primeiro
Presidente João Gonçalves de Azevedo. E o velho Lubango tomou
definitivamente o nome de Sá da Bandeira, quando em 1901 foi criado o
Distrito da Huíla com sede na vila de Sá da Bandeira. então elevada a
essa categoria.
In:
"Boletim Municipal da Câmara de Sá da Bandeira, 1971".
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LUBANGO – EPOPEIA
DE MADEIRENSES
A 18 de Outubro de 1884
largava do Funchal o navio
«Índia», rumo a Moçâmedes, com mais de duas centenas de madeirenses –
homens, mulheres e crianças – os adultos, na sua maioria camponeses.
Vinham iniciar o povoamento europeu do Lubango, dentro de um plano
traçado pelo Marquês de Sá da Bandeira, Ministro da Marinha e Ultramar.

Embarcaram cheios de esperança, confiantes nas promessas que lhes haviam
sido feitas. Vivendo, quase todos eles, em condições precárias,
acreditaram que, à sua chegada ao Planalto de Moçâmedes, como então era
denominada a vasta região da Huíla, encontrariam aqui as Terras da
Promissão.
Em 19 de Novembro, o «Índia» ancorava em Moçâmedes com
uma criança nascida a bordo.
Foram, pouco depois, os madeirenses divididos em dois
grupos. O primeiro, subindo a serra da Chela, alcançou a margem direita
do rio Caculevar no dia de Natal; o segundo, no dia 18 de Janeiro de
1885.
As duas viagens
consumindo mais de um mês, em carros dos
«boers», por caminhos acidentados, em períodos de chuvas, constituíram
verdadeiro suplício. Chegaram tristes e vencidos pelo cansaço e mais
desanimaram quando viram as instalações que lhes eram destinadas: quatro
barracões amplos mas de pau a pique e cobertos a capim, que D. José da
Câmara Leme, condutor de Obras Públicas, mandara construir, por ordem do
Governador de Moçâmedes.

Dois destes barracões eram reservados a casais e
crianças; os outros dois aos seus filhos mais crescidos e a solteiros,
um para rapazes outro para raparigas.
Não seriam melhor os alojamentos de D. José da Câmara e
Leme e do médico Rolão Preto, porque eram duas cubatas.
Foi considerada como data oficial da instalação da
Colónia de Sá da Bandeira o dia 19 de Janeiro de1885.
Os pioneiros eram pobres, muitos deles gente de
trabalho, outros não, mas nenhum esperava que se lhes deparasse uma
situação de tanta promiscuidade e tristeza como aquela, onde estavam
ausentes as mais elementares comodidades da época.
Protestaram, praguejaram contra quem os iludira. Voltar
ao ponto de partida era impossível. E nem eles desejariam, sem dinheiro,
sem mantimentos e sem meios de transporte, reiniciar, em sentido
inverso, uma caminhada tão longa e tormentosa como a anterior. O mar
estava muito distante e ninguém seria capaz de se aventurar por lugares
inóspitos como aqueles que haviam sido percorridos.
Descontentes, chorosos, lamentando a sua desdita,
desamparados e mais pobres do que na sua Ilha da Madeira, que
saudosamente recordavam, ficaram. Não lhes era dada outra alternativa,
nem sequer podiam decidir. Sentiam-se prisioneiros numa enorme prisão
sem grades. E compreenderam bem depressa, alguns sob as ameaças e os
castigos de D. José da Câmara Leme, que era homem de pulso forte e
temido, outros aceitando as suas resoluções e observando os conselhos
dos padres e das irmãs da Missão da Huíla, que tinham de arrotear e
semear os campos, que o Lubango era a sua terra e a terra dos seus
filhos. Os mais diligentes e mais abnegados lançaram-se à sua tarefa com
ardor e entusiasmo.
Seis meses volvidos, graças à tenacidade de D. José da
Câmara Leme e à boa vontade da maior parte dos povoadores surgiam as
primeiras moradias provisórias, espalhadas pelos campos verdejantes do
Lubango, onde se fazia uma agricultura meramente de subsistência.

Entretanto foram chegando mais
madeirenses, uns em grupo, com passagens pagas pelo Estado, outros
isoladamente, assim como vieram, de várias partes do território
nacional, funcionários públicos, professores, homens de negócios e de
profissões liberais, empregados do comércio e da indústria, agricultores
e operários, acompanhados de familiares.
A população europeia aumentou,
a nativa também, o Lubango cresceu e progrediu, em setenta anos
lentamente, mas depois a um ritmo impressionante, superior ao da maioria
das cidades de Angola.
In:
"Boletim Municipal da Câmara de Sá da Bandeira, 1971".
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NOSSA SENHORA DO MONTE
Os madeirenses
que foram chegando em levas sucessivas imprimiam ao pequeno burgo, cada
vez mais profundamente, as características indeléveis da sua terra
natal, onde a devoção a Nossa Senhora do Monte é nota dominante da vida
religiosa do povo.

Por
isso, nesse mesmo ano de 1901, um grupo de «colonos dirigiu-se ao então
pároco de S. José do Lubango, Padre Manuel Francisco Pessoa da Luz,
solicitando o seu patrocínio para a erecção duma capela em honra de
Nossa Senhora do Monte, a poente da vila de Sá da Bandeira, na Povoação
de Cima.

No dia 6
de Outubro
desse mesmo ano, os interessados, na companhia do pároco
des1ocaram-se à Povoação de Cima, a fim de escolherem um local adequado
para erecção da ermida. Apareceu-lhes então o «colono» António Firmino
Júnior, propondo a venda de um terreno que possuía à entrada e à direita
do actual Parque de Nossa Senhora do Monte. Foi aceite a sua proposta de
venda do terreno e da casa que nele existia, tudo pela quantia de 44$380
reis Este mesmo grupo reuniu-se ainda no mesmo dia na residência
paroquial, sendo eleita uma comissão constituída pelo pároco na
presidência e os seguintes vogais: Pio Alberto Marques de Miranda, João
da Ressurreição, Casimiro Caldeira Júnior, Ricardo Rodrigues, António
Roque de Freitas e António Rodrigues Brunido, João da Ressurreição e Gualdino da Paixão de Sousa ficaram a desempenhar respectivamente as
funções de tesoureiro e secretário.

Aberta
uma subscrição
pública para angariamento de fundos, a referida Comissão
adquiriu o terreno e começou as obras da capelinha. Parte do terreno era
cultivado sob a orientação da Comissão de Nossa Senhora do Monte,
revertendo os lucros em favor de melhoramentos que se iam efectuando no
local. Orientaram as obras de pedreiro Jacinto Rodrigues e as de
carpinteiro João da Silva.
As obras iam prosseguindo
vagarosamente. E foi junto da capela, ainda em construção, que o mesmo
sacerdote celebrou missa campal. em 15 de Agosto de 1902, diante duma
imagem de Nossa Senhora da Conceição da Igreja Paroquial. Foram estas as
primeiras Festas de Nossa Senhora do Monte, celebradas em Sá da
Bandeira.
Entretanto continuavam as obras e os melhoramentos do local e seu
acesso. Construiu-se uma estrada e desmatou-se a região. Crescia o
entusiasmo entre os habitantes do burgo. A Comissão trabalhava sem
descanso para levar a bom termo a sua incumbência. O tesoureiro João da
Ressurreição, antes de partir para a sua terra natal em meados de 1903,
timbrou em oferecer o baldaquino; o secretário Gualdino da Paixão de
Sousa mandou construir à sua custa o altar e José Venâncio Ferreira
Rodrigues fez oferta da imagem de Nossa Senhora do Monte, que em
cumprimento de um voto, mandou executar na cidade do Porto e que lhe
custou 72$000 reis. Esta imagem chegou a Sá da Bandeira em 29 de Junho
de 1903. A Companhia dos Dragões do Planalto ofereceu o missal, alguns
paramentos e o sino.
Em 10 de
Julho
tomava posse o novo tesoureiro João José Caldeira. enquanto as
obras prosseguiam cada vez com mais entusiasmo. Pôde assim concluir-se
aquela ermida que custou cerca de 2.200$000 reis, não contando com
algumas dadivas em material. O novo pároco, Padre José Martins,
devidamente autorizado pelo Bispo de Angola e Congo, procedeu à benção
da capela em honra de Nossa Senhora do Monte, em 14 de Agosto de 1903.
Do acto solene lavrou-se um auto, que foi assinado na presença de quase
toda a «colónia», pelos seguintes nomes: Padre José Martins, Casimiro
Caldeira Júnior, João José Caldeira. António Firmino Júnior, Eduardo da
Costa e Gualdino da Paixão de Sousa.
No dia
seguinte
celebraram-se as segundas Festas de Nossa Senhora do Monte:
missa cantada, bazar de prendas e mais divertimentos com a presença de
muita gente da cidade e de outras localidades de Angola. E as Festas de
Nossa Senhora do Monte continuaram a celebrar-se com uma certa
imponência, todos os anos no dia 15 de Agosto, por vontade da Comissão,
a que continuou a presidir o Padre José Martins que, em 1916 se retirou
para a Metrópole.
Entretanto,
também a morte foi ceifando os vogais Ricardo Rodrigues,
António Rodrigues Brunido, João José Caldeira e Ant6nio Roque de
Freitas. Por isso, em 19 de Novembro, foi escolhida nova Comissão
constituída pelo novo pároco Padre Claudino de Nazaré Brites, Manuel
Joaquim Fernandes, Jaime Caldeira, António da Paixão de Sousa e Joaquim
Roque de Freitas, que tomaram posse no fim da missa celebrada na capela
de Nossa Senhora do Monte, em 25 de Dezembro.
Em 1919, João Henriques de Azevedo
resolveu agregar a si um grupo de cidadãos com o fim de substituir a
velha capela por outra mais apropriada a construir no monte. O povo de
Sá da Bandeira e dos arredores não se sentiu satisfeito. Os madeirenses
pretendiam imitar mais perfeitamente as tradições da sua terra. A
capelinha não se podia avistar de longe, como a Senhora do Monte da
Madeira. No Parque estava muito escondida. Queriam poder olha-la das
suas casas. Desejavam que a Senhora do Monte os visse a trabalhar nos
seus campos e contemplasse as suas sementeiras para as abençoar.
Ansiavam viver permanentemente sob os olhos de Nossa Senhora do Monte.
Esta nova Comissão
era constituída pelas seguintes entidades : Dr. Alfredo Lobo das Neves.
Américo Manjericão, Emídio Fernandes, Francisco de Meireles, José Maria
da Costa Simões. Luís Marques de Miranda e João Henriques de Azevedo,
que logo entraram com 900$ cada um para as primeiras despesas a
realizar.
João
Henriques de Azevedo fez o projecto da actual capela, imitando a traça
do templo de Nossa Senhora do Monte, na Madeira. Foi empreiteiro da obra
Constantino Roumeliotis, que ergueu a actual ermida. O custo da obra
elevou-se a 12.000$00, embora utilizando tijolo e madeira da antiga
capela.
A nova
ermida
ainda em vias de acabamento foi solenemente benzida em 16 de
Agosto de 1921, sendo o auto assinado por: Padre Manuel António Dourado, Gualdino da Paixão de Sousa. Casimiro Caldeira, Jaime Mendonça Caldeira,
Manuel Joaquim Fernandes e António da Paixão de Sousa. Houve missa
cantada pelo Padre Henrique Aucopt e sermão pregado pelo pároco Padre
Dourado.
O
terreno com a casa do local onde existira a antiga capela foi comprado
por João Ricardo por 2 200$00.
Às
festas do ano seguinte
veio presidir o Vigário Geral da Chela, Padre
Benedito Mário Bonnefoux, que celebrou missa solene, acolitado pelos
Padres Pedro Topoaz e Manuel António Dourado.
Seguiram-se
outras comissões que tomaram a seu cargo a celebração das
Festas de Nossa Senhora do Monte, todos os anos. E foi a partir de 1930
que a imagem de Nossa Senhora do Monte, no dia 15 de Agosto, era trazida
em procissão da sua capela para outra improvisada no Parque, pois
tornava-se difícil a muitos devotos, já velhos, subirem a encosta do
monte escalavrado.
Em 1931
tomou posse
uma nova Comissão constituída pelos seguintes indivíduos:
Padre Manuel António Dourado, Gualdino da Paixão de Sousa, Carlos
Teixeira Velosa, Raul da Paixão de Sousa e Francisco Baptista. Formou-se
ainda uma Comissão de Melhoramentos constituída pelas seguintes
individualidades: Dr. Alfredo Lobo das Neves, Luís Marques de Miranda,
Emídio Fernandes, capitão Rogério de Paiva Cardoso, João Henriques de
Azevedo, Serafim Simões Nunes, Jaime Moreira de Vilhena, José Maria da
Costa Simões, Casimiro Caldeira, Manuel Gonçalves Lavadinha e João
Pereira do Rio. Pretendia esta Comissão de Melhoramentos rasgar uma
estrada de quatro metros de largura até ao meio da encosta, seguida de
uma escadaria até à capela, um coreto, bazar e bar, em estilo
árabe-oriental com influencias portuguesas. O conjunto ficaria integrado
no Parque de Nossa Senhora do Monte, cujo projecto foi realizado pelo
Dr. Luís Miranda.
Foi
ainda constituída
uma comissão de senhoras que tomaram a seu cargo
coadjuvar nos trabalhos de aformoseamento e de conservação da capela.
Era formada pelas senhoras : D. Fernandina de Figueiredo, D. Olívia
Simões Nunes, D. Maria Carolina Fernandes Simões, D. Judith Martins Braz
e D. Maximina Fernandes.
Segundo
o cronista
que vimos seguindo, Zarco d'Almeirim, da Sociedade de
Geografia de Lisboa, as Festas de Nossa Senhora do Monte, nos princípios
da década de 1930 revestiam-se de grande imponência e a elas acorriam
todos os anos muitos forasteiros de toda a Província de Angola.
Sá da Bandeira, elevada a cidade por
Norton de Matos, em 1923, ia crescendo e expandindo-se. Tornava-se mais
cosmopolita. As últimas comissões já se sentiam dominadas pelo desejo de
urbanização. quando vislumbravam um Parque maravilhoso, que viesse
lembrar o do Bom Jesus do Monte, em Braga. Entre 1919 e 1920, a Câmara
Municipal abrira uma larga avenida, desde a cidade ate ao sopé do monte.
A certa
altura
a tradição das Festas de Nossa Senhora do Monte ia-se quase
perdendo. Só alguns grupos de madeirenses teimavam em subir, todos os
anos, em 15 de Agosto, até à sua capelinha, que continuou sendo a
encarnação viva da saudade da sua terra distante, mas nunca esquecida.
Depois da romagem piedosa, ficavam-se ali pelo Parque, meio selvagem,
mas sempre belo, comendo os seus ranchos cozinhados à base de
tradicionais pratos madeirenses. A romaria foi-se reduzindo a uma ténue
chamazinha, que os velhos colonos teimavam em manter acesa e transmitir
a filhos e netos em toda a sua pureza saudosa.
Mas, em
1952, um grupo de homens bons desta cidade tomou a peito a tarefa de
fazer reviver com todo o brilho a antiga tradição.
A ténue
chama
teimosamente acesa transformou-se em fogueira que levou a sua luz
a todas as terras de Angola. O seu entusiasmo comunicou-se à Câmara
Municipal e encontrou valioso apoio e colaboração tanto do Município
como do Governo do Distrito. Entidades oficiais e particulares
deixaram-se empolgar pela ideia de fazer da romaria de Nossa Senhora do
Monte as Festas da Cidade de Sá da Bandeira, imprimindo-lhes brilho e
projecção que atraíssem forasteiros de toda a Província.
In:
"Boletim Municipal da Câmara de Sá da Bandeira, 1971".
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DATAS, NOMES E FACTOS
Sem pretensões
de fazer história e apenas no propósito de recordar os acontecimentos de
maior relevo na epopeia aqui levada a cabo, reproduzimos, em breve
síntese, os dados colhidos nas obras de diversos historiadores de
Angola, nomeadamente no trabalho do capitão Gastão de Sousa Dias
intitulado "A Cidade de Sá da Bandeira" e publicado pela Câmara
Municipal em 1957.
*
Foi o
capitão-mor de Benguela, Lopo Soares Lasso quem, no comando de uma
expedição às regiões vizinhas das nascentes do rio Cunene, em 1627.
estabeleceu os primeiros contactos com as terras e os povos do planalto
da Huíla.

*
Em
1769 o governador de Angola, D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho,
promoveu a fundação da povoação a que deu o nome de ALBA NOVA da qual
nasceu a actual povoação da Huíla. Foi nomeado seu primeiro capitão-mor
António Rodrigues Algarve, e primeiro pároco da freguesia criada sob a
invocação de Nossa Senhora das Lágrimas o capuchinho Gabriel de Braga.
*
Passados anos, Alba Nova tinha-se desenvolvido em popu1ação e
importância, sob o impulso dos governantes e graças ao esforço e
trabalho dos pioneiros que iam devassando os sertões e estabelecendo com
os nativos o trato e comércio de trocas que era então o principal meio e
agente do povoamento.
*
Em 1828, era regente de Alba Nova Felício Matos da Conceição e em 1837
ocupava esse posto o alferes João Francisco Garcia.
*
Este
mesmo João Garcia, já então tenente, comandou em 1838 uma expedição que,
partindo de Benguela, seguiu por Quilengues, Huíla e Jau e atingiu o
litoral em Angra do Negro, a actual Moçâmedes.
Pretendeu esse activo oficial em 1841, fazer a exploração das terras da
Huíla. seguindo o trajecto de Moçâmedes a Caconda, mas não o conseguiu
perante a hostilidade do soba huilano.
*
Em 1845, o tenente Garcia, cujo nome, como se vê, tão ligado está à
ocupação e desbravamento desta zona do sul, foi nomeado Regente da
Huíla, subordinada ao Governador de Benguela e cujo povoamento sofreu
grande impulso a partir desta época.
*
Em 1850, por iniciativa do Marquês de Sá da Bandeira, é criado o
Concelho da Huíla.
* No
prosseguimento das tentativas de colonização do Planalto, as autoridades
provinciais facultaram a vinda e instalação na Humpata, em 1880, de
algumas centenas de boers, emigrados das suas terras, no sul, para
fugirem ao domínio dos ingleses.
Ainda
hoje se encontram na região da Humpata descendentes daqueles colonos,
facilmente identificáveis pelas suas características fisionómicas.
* O
facto mais assinalável e decisivo, o que pode considerar-se
verdadeiramente a fundação de Sá da Bandeira, foram as expedições de
madeirenses devidas à iniciativa do Ministro da Marinha e Ultramar
Pinheiro Chagas, insigne escritor que igualmente se notabilizou na
gerência da citada pasta.
O
primeiro grupo de povoadores saído da Madeira em Outubro de 1884, desembarcou em Moçâmedes no mês seguinte. Penosamente, esforçadamente, mas animados
pela esperança de alcançarem , nestas terras do Sul de Angola maior
fortuna do que a desfrutada na sua terra natal, subiram a Serra da Chela
e instalaram-se na Colónia de Sá da Bandeira, oficialmente criada para
esse efeito e cuja direcção foi entregue a D. José da Câmara Leme, um
dos homens de maior valor, pela sua inteligência e senso administrativo,
que trabalharam nesta parte da Província.
Chegado
ao planalto o segundo grupo dos colonos madeirenses, elaborou Câmara
Leme e pôs em vigor, em 14 de Março de 1885, um "Regulamento Provisório
para a Colónia de Sá da Bandeira, documento admirável de saber e tacto
administrativo, espécie de Foral ou Posturas, onde se estabelecia a
organização da Colónia, os deveres dos dirigentes, as atribuições do
"Conselho Rural", os direitos e deveres dos povoadores, etc.
Atingidos, nesta compilação de factos huilanos, os tempos modernos,
depara-se-nos a criação, por Decreto de 26/12/1889, do concelho do
Lubango, cuja primeira Câmara Municipal foi nomeada em 1891.
*
Passados 10 Anos o Governo criou, pelo Decreto de 2/9/1901, o distrito
da Huíla, com sede em Sá da Bandeira, elevada à categoria de vila.
Abrangia os concelhos do Lubango, Humpata, Huíla, Gambos e Humbe,
estendendo-se para sul e leste até às regiões fronteiriças,
respectivamente o Sudoeste Alemão e o Barotze.
*
Em Setembro de 1917, o distrito da Huíla foi aumentado com a anexação
dos territórios do litoral de Moçâmedes, ao mesmo tempo que se lhe retiravam
as terras do Cunene, com que era formado o novo distrito do Cubango.
*Meses
depois, em Janeiro de 1918, nova reorganização administrativa
restabelecia o distrito de Moçâmedes e suprimia o do Cubango - situação
que se manteve até 1935, data em que foi estabelecida a divisão de
Angola em 5 Províncias, uma das quais, a Província da Huíla abrangia,
além do distrito próprio, o de Moçâmedes e as vastas regiões de
Quilengues, Caconda, Gambos, etc.
*
Em 31 de Março de 1923, data em que se celebrou a chegada do Caminho de
Ferro ao Lubango, foi esta vila elevada à categoria de Cidade, com o
nome de SÁ DA BANDEIRA.
*
Finalmente, em 5 de Julho de 1955 era promulgado o "Estatuto Político da
Província de Angola" que repunha a divisão administrativa por distritos,
restabelecendo o de Moçâmedes, mas mantendo a supressão do do Cubango,
cujos territórios, constituindo a intendência do Baixo Cunene,
continuavam a pertencer ao distrito da Huíla.
In:
"Boletim Municipal da Câmara de Sá da Bandeira, 1971".
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