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FUNDAÇÃO DA COLÓNIA DE
SÁ DA BANDEIRA
  LUBANGO – EPOPEIA DE MADEIRENSES   NOSSA SENHORA DO MONTE   DATAS, NOMES E FACTOS

A história de Sá da Bandeira começa naquele dia em que D. José da Câmara Leme viu estender-se ante os seus olhos maravilhados o Vale do Lubango.

Sá da Bandeira - Praça dos Fundadores em 1950

Vinha o então Condutor de Obras Públicas Câmara Leme a realizar o seu plano de escalar a serra com uma estrada que encurtasse o trajecto entre Moçâmedes e a Huíla, fugindo às invencíveis dificuldades do acesso ao Planalto pelas portas difíceis do Bruco.

O Vale do Lubango era um paraíso encantado após as securas do deserto do Namibe e as dificuldades tremendas dos precipícios da Chela terrivelmente enrugada. Encontrar agua límpida correndo a sorrir por entre a vegetação viçosa duma bacia hidrográfica abrigada das ventanias pela protecção da serra devia ser para Câmara Leme a sensação mais forte da sua vida. Cresceu-lhe o entusiasmo no peito. Começou a desenhar-se-lhe "um sonho portentoso na fantasia ardente". Com 28 anos de idade punha nos seus pensamentos todo o ardor e entusiasmo da juventude e todo o patriotismo da sua alma dedicada ao engrandecimento de Portugal.

Andava em curso a pacificação do Sul de Angola, cobiçado por nações estrangeiras vizinhas que procuravam lançar nas terras de Angola as sementes da discórdia e da traição quase descarada. Já então a glória começava a nimbar a figura heróica de Artur de Paiva. Estavam em curso diversas tentativas de povoamento dirigido, nomeadamente na Huíla, Humpata. Palanca e Bibala. Tratava-se de implantar uma nova povoação nas terras desabitadas do Lubango. E logo pensou na sua terra natal - a Madeira.

Escreveu ao Governador-Geral Ferreira do Amaral, dando conta do sonho que lhe empolgava a alma. Chegara a uma região maravilhosa para a agricultura. Havia abundância de água para irrigação. Os terrenos eram férteis. O clima apresentava-se duma amenidade incomparável. As serranias bem arborizadas faziam-lhe lembrar a remota Madeira. Todo o conjunto da região parecia-lhe um pedaço das costas mediterrânicas. A ilha da Madeira, superpovoada, poderia fornecer os primeiros contingentes de povoadores. Seria mais uma bela povoação portuguesa em África, uma povoação de grande futuro!

A ideia encontrara o melhor acolhimento da parte do Governo-Geral. Vinha até ao encontro da preocupação governamental de contrabalançar os contingentes boers, emigrados da África da Sul para as terras planálticas da Huíla, com elementos lusitanos que imprimiriam o carácter português às novas povoações. Mas o Governador-Geral lamentava não poder fazer nada para a concretização do sonho daquele funcionário patrioticamente empenhado. A ideia exposta ultrapassava os limites da administração do Governo-Geral. Era da competência do Ministro do Ultramar. Só em Lisboa se podia gizar o projecto dessa povoação por envolver outras parcelas do territ6rio português, que teriam de recrutar povoadores para o Lubango. 0 Governo de Angola. embora visse perfeitamente a viabilidade do projecto, nada podia fazer para a sua realização. Não tinha meios nem poderes.

Era o primeiro obstáculo que se erguia contra o sonho de D. José da Câmara Leme. Mas o ilustre funcionário não era homem que desanimasse às primeiras dificuldades. A resposta do Governo-Gcral de Angola só vinha fortificar a sua ideia, pois, no fundo, apoiava a seu projecto. E o simples condutor de Obras Públicas ao serviço do Distrito de Moçâmedes, de área vastíssima e desconhecida, resolve poder o que não podia o mais alto magistrado de Angola.

Alegaria a necessidade duma licença graciosa para retemperar a saúde após a realização do seu projecto de vencer a serrania com uma estrada directa à povoação da Huíla. Não teria vencimentos durante uns meses. Mas a concretização do seu sonho de engrandecimento da Pátria valia bem todos os sacrifícios. O mérito alcançado com a construção da rodovia levada a efeito seria com certeza considerado para deferimento da sua petição, que era justa. Não se enganou nos seus prognósticos. Obteve a graciosa sem vencimentos, como era hábito então.

Partiu para Lisboa, depois de novamente expor oralmente o seu sonho ao Governo-Geral. que o continuava a encarar com o mesmo carinho impotente, sem meios nem competência legislativa que lhe permitissem torná-lo realidade. Era indispensável transporta-lo ao Governo Central e acompanhar de perto o resultado de todas as diligências.

Chegado à Capital da Nação, Câmara Leme bateu às portas do Ministério da Marinha e Ultramar, cuja pasta era então sobraçada pelo grande escritor e jornalista. orador, dramaturgo e historiador Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, no último Ministério sob a presidência de Fontes Pereira de Melo. Pinheiro Chagas dedicava ao Ultramar todo o seu carinho e inteligência. Durante os dois anos do seu Ministério, conseguiu estabelecer comunicações telegráficas por cabo submarino entre a Metrópole e Angola; iniciar a construção dos caminhos de ferro de Luanda; criar os serviços de abastecimento de agua a Luanda: desenvolver o povoamento do interior do Distrito de Moçâmedes - Planalto da Huíla; criar o Distrito do Congo e estabelecer a navegação fluvial do Zaire, além de obras semelhantes nas outras Províncias Ultramarinas. Era realmente o Ministro de que precisava Câmara Leme.

Não lhe foi difícil expor o sonho que lhe enchia a alma. O seu entusiasmo sugeria-lhe palavras eloquentes capazes de empolgar a mente do Ministro tão profundamente empenhado na obra de valorização do Planalto da Huíla.Conseguiu com relativa facilidade o instrumento legal que criava, no Lubango, a "Colónia de Sá da Bandeira". Mas imputava-se também a Câmara Leme a responsabilidade de recrutamento, na Madeira, dos elementos da nova “colónia" e a direcção da sua instalação nas promissoras terras da Huíla.

Dificuldades encontrou-as Câmara Leme no Funchal para recrutamento da gente que precisava. As entidades oficiais não lhe prestavam a colaboração leal, que esperava. Por isso não pôde escolher os elementos que desejava. Teve de se contentar com os que lhe deram. Mas não desanimou. Tomou conscientemente sobre os seus ombros o pesado encargo de desbravar as almas e de formar agricultores de homens e mulheres que de lavoura nada ou quase nada conheciam. Já se acostumara em Angola ao ensino de hábitos de trabalho a inteligências mais rudes e viciadas. Todos dispunham de braços e corpos sadios para o trabalho.

Forneceram-lhe as verbas indispensáveis para a compra de ferramentas e aquisição das sementes e plantas que tencionava aclimatar. Sabia, por conhecimento pessoal, que a Missão da Huíla sob a orientação do Padre José Maria Antunes. estava a realizar valiosíssimas experiências no campo agrícola. Era um importante ponto de apoio para a sua iniciativa. Daquele Missionário e dos seus colaboradores esperava Câmara Leme não apenas assistência religiosa da nova povoação mas também a prestimosa colaboração agro-pecuária. que evidentemente lhe foi prestada pelo Superior daquela Missão, no qual ardia o mesmo espirito de pioneiro e de patriota.

Com 222 colonos, com as alfaias agrícolas que pôde adquirir e com as sementes e espécies vegetais que lhe pareceram mais adequadas, embarcou D. José da Câmara Leme no transporte «Índia». que os deixou em Moçâmedes em Novembro de 1884.

O Governador de Moçâmedes, Sebastião Nunes da Mata, conforme as ordens emanadas do Governo-Geral, deu-lhe as instruções e a orientação indispensáveis para a realização do seu projecto. A travessia do Deserto e a subida da serra foi uma epopeia, em que o Director teve de evidenciar todas as qualidades de chefia e de autoridade.

Chegados ao Lubango nas vésperas do Natal, meteram ombros à tarefa urgente de criar uma povoação próspera e desenvolver condições de vida na selva que começaram a desbravar com denodo.

Em menos de trinta dias realizaram os trabalhos indispensáveis para fazer a inauguração oficial da "Colónia de Sá da Bandeira", em 19 de Janeiro de 1885.

Em 18 de Junho deste mesmo ano embarcou no transporte "África" novo contingente de colonos, cuja selecção já obedeceu a melhor critério. Esta segunda leva de madeirenses chegou ao Lubango exactamente no dia 19 de Agosto de 1885,  perfazendo, nesse ano o número global de 428 pessoas.

Os colonos madeirenses instalaram-se no Lubango para se arreigarem definitivamente à terra com todas as tradições e riqueza humana do seu berço natal. Não foi vertiginoso, mas foi seguro o crescimento de Sá da Bandeira que em 1889 era elevada a sede do concelho do Lubango. Em 15 de Janeiro de 1891, reunia a sua primeira Câmara Municipal, sendo eleito seu primeiro Presidente João Gonçalves de Azevedo. E o velho Lubango tomou definitivamente o nome de Sá da Bandeira, quando em 1901 foi criado o Distrito da Huíla com sede na vila de Sá da Bandeira. então elevada a essa categoria. 

In: "Boletim Municipal da Câmara de Sá da Bandeira, 1971".


 

 

A 18 de Outubro de 1884 largava do Funchal o navio «Índia», rumo a Moçâmedes, com mais de duas centenas de madeirenses – homens, mulheres e crianças – os adultos, na sua maioria camponeses. Vinham iniciar o povoamento europeu do Lubango, dentro de um plano traçado pelo Marquês de Sá da Bandeira, Ministro da Marinha e Ultramar.

Primeiros barracões dos colonos madeirenses

Embarcaram cheios de esperança, confiantes nas promessas que lhes haviam sido feitas. Vivendo, quase todos eles, em condições precárias, acreditaram que, à sua chegada ao Planalto de Moçâmedes, como então era denominada a vasta região da Huíla, encontrariam aqui as Terras da Promissão.

Em 19 de Novembro, o «Índia» ancorava em Moçâmedes com uma criança nascida a bordo.

Foram, pouco depois, os madeirenses divididos em dois grupos. O primeiro, subindo a serra da Chela, alcançou a margem direita do rio Caculevar no dia de Natal; o segundo, no dia 18 de Janeiro de 1885.

As duas viagens consumindo mais de um mês, em carros dos «boers», por caminhos acidentados, em períodos de chuvas, constituíram verdadeiro suplício. Chegaram tristes e vencidos pelo cansaço e mais desanimaram quando viram as instalações que lhes eram destinadas: quatro barracões amplos mas de pau a pique e cobertos a capim, que D. José da Câmara Leme, condutor de Obras Públicas, mandara construir, por ordem do Governador de Moçâmedes.

Lubango - Primeiras casas unifamiliares

Dois destes barracões eram reservados a casais e crianças; os outros dois aos seus filhos mais crescidos e a solteiros, um para rapazes outro para raparigas.

Não seriam melhor os alojamentos de D. José da Câmara e Leme e do médico Rolão Preto, porque eram duas cubatas.

Foi considerada como data oficial da instalação da Colónia de Sá da Bandeira o dia 19 de Janeiro de1885.

   Lubango - Igreja de S. José

Os pioneiros eram pobres, muitos deles gente de trabalho, outros não, mas nenhum esperava que se lhes deparasse uma situação de tanta promiscuidade e tristeza como aquela, onde estavam ausentes as mais elementares comodidades da época.

Protestaram, praguejaram contra quem os iludira. Voltar ao ponto de partida era impossível. E nem eles desejariam, sem dinheiro, sem mantimentos e sem meios de transporte, reiniciar, em sentido inverso, uma caminhada tão longa e tormentosa como a anterior. O mar estava muito distante e ninguém seria capaz de se aventurar por lugares inóspitos como aqueles que haviam sido percorridos.

Descontentes, chorosos, lamentando a sua desdita, desamparados e mais pobres do que na sua Ilha da Madeira, que saudosamente recordavam, ficaram. Não lhes era dada outra alternativa, nem sequer podiam decidir.

   Lubango - Missa de domingo na Igreja de S. José 

Sentiam-se prisioneiros numa enorme prisão sem grades. E compreenderam bem depressa, alguns sob as ameaças e os castigos de D. José da Câmara Leme, que era homem de pulso forte e temido, outros aceitando as suas resoluções e observando os conselhos dos padres e das irmãs da Missão da Huíla, que tinham de arrotear e semear os campos, que o Lubango era a sua terra e a terra dos seus filhos. Os mais diligentes e mais abnegados lançaram-se à sua tarefa com ardor e entusiasmo.

Seis meses volvidos, graças à tenacidade de D. José da Câmara Leme e à boa vontade da maior parte dos povoadores surgiam as primeiras moradias provisórias, espalhadas pelos campos verdejantes do Lubango, onde se fazia uma agricultura meramente de subsistência.

Lubango - Coreto que deu lugar à Fonte Luminosa

Entretanto foram chegando mais madeirenses, uns em grupo, com passagens pagas pelo Estado, outros isoladamente, assim como vieram, de várias partes do território nacional, funcionários públicos, professores, homens de negócios e de profissões liberais, empregados do comércio e da indústria, agricultores e operários, acompanhados de familiares.

A população europeia aumentou, a nativa também, o Lubango cresceu e progrediu, em setenta anos lentamente, mas depois a um ritmo impressionante, superior ao da maioria das cidades de Angola.

 

In: "Boletim Municipal da Câmara de Sá da Bandeira, 1971".


 

 

Os madeirenses que foram chegando em levas sucessivas imprimiam ao pequeno burgo, cada vez mais profundamente, as características indeléveis da sua terra natal, onde a devoção a Nossa Senhora do Monte é nota dominante da vida religiosa do povo.

Por isso, nesse mesmo ano de 1901, um grupo de «colonos dirigiu-se ao então pároco de S. José do Lubango, Padre Manuel Francisco Pessoa da Luz, solicitando o seu patrocínio para a erecção duma capela em honra de Nossa Senhora do Monte, a poente da vila de Sá da Bandeira, na Povoação de Cima.

  Capela de Nossa Senhora do Monte 

No dia 6 de Outubro desse mesmo ano, os interessados, na companhia do pároco deslocaram-se à Povoação de Cima, a fim de escolherem um local adequado para erecão da ermida. Apareceu-lhes então o «colono» António Firmino Júnior, propondo a venda de um terreno que possuía à entrada e à direita do actual Parque de Nossa Senhora do Monte. Foi aceite a sua proposta de venda do terreno e da casa que nele existia, tudo pela quantia de 44$380 reis Este mesmo grupo reuniu-se ainda no mesmo dia na residência paroquial, sendo eleita uma comissão constituída pelo pároco na presidência e os seguintes vogais: Pio Alberto Marques de Miranda, João da Ressurreição, Casimiro Caldeira Júnior, Ricardo Rodrigues, António Roque de Freitas e António Rodrigues Brunido, João da Ressurreição e Gualdino da Paixão de Sousa ficaram a desempenhar respectivamente as funções de tesoureiro e secretário.

Aberta uma subscrição pública para angariamento de fundos, a referida Comissão adquiriu o terreno e começou as obras da capelinha. Parte do terreno era cultivado sob a orientação da Comissão de Nossa Senhora do Monte, revertendo os lucros em favor de melhoramentos que se iam efectuando no local. Orientaram as obras de pedreiro Jacinto Rodrigues e as de carpinteiro João da Silva.

As obras iam prosseguindo vagarosamente. E foi junto da capela, ainda em construção, que o mesmo sacerdote celebrou missa campal. em 15 de Agosto de 1902, diante duma imagem de Nossa Senhora da Conceição da Igreja Paroquial. Foram estas as primeiras Festas de Nossa Senhora do Monte, celebradas em Sá da Bandeira.

Entretanto continuavam as obras e os melhoramentos do local e seu acesso. Construiu-se uma estrada e desmatou-se a região. Crescia o entusiasmo entre os habitantes do burgo. A Comissão trabalhava sem descanso para levar a bom termo a sua incumbência. O tesoureiro João da Ressurreição, antes de partir para a sua terra natal em meados de 1903, timbrou em oferecer o baldaquino; o secretário Gualdino da Paixão de Sousa mandou construir à sua custa o altar e José Venâncio Ferreira Rodrigues fez oferta da imagem de Nossa Senhora do Monte, que em cumprimento de um voto, mandou executar na cidade do Porto e que lhe custou 72$000 reis. Esta imagem chegou a Sá da Bandeira em 29 de Junho de 1903. A Companhia dos Dragões do Planalto ofereceu o missal, alguns paramentos e o sino.

Em 10 de Julho tomava posse o novo tesoureiro João José Caldeira. enquanto as obras prosseguiam cada vez com mais entusiasmo. Pôde assim concluir-se aquela ermida que custou cerca de 2.200$000 reis, não contando com algumas dadivas em material. O novo pároco, Padre José Martins, devidamente autorizado pelo Bispo de Angola e Congo, procedeu à benção da capela em honra de Nossa Senhora do Monte, em 14 de Agosto de 1903. Do acto solene lavrou-se um auto, que foi assinado na presença de quase toda a «colónia», pelos seguintes nomes: Padre José Martins, Casimiro Caldeira Júnior, João José Caldeira. António Firmino Júnior, Eduardo da Costa e Gualdino da Paixão de Sousa.

No dia seguinte celebraram-se as segundas Festas de Nossa Senhora do Monte: missa cantada, bazar de prendas e mais divertimentos com a presença de muita gente da cidade e de outras localidades de Angola. E as Festas de Nossa Senhora do Monte continuaram a celebrar-se com uma certa imponência, todos os anos no dia 15 de Agosto, por vontade da Comissão, a que continuou a presidir o Padre José Martins que, em 1916 se retirou para a Metrópole.

Entretanto, também a morte foi ceifando os vogais Ricardo Rodrigues, António Rodrigues Brunido, João José Caldeira e Ant6nio Roque de Freitas. Por isso, em 19 de Novembro, foi escolhida nova Comissão constituída pelo novo pároco Padre Claudino de Nazaré Brites, Manuel Joaquim Fernandes, Jaime Caldeira, António da Paixão de Sousa e Joaquim Roque de Freitas, que tomaram posse no fim da missa celebrada na capela de Nossa Senhora do Monte, em 25 de Dezembro.

Em 1919, João Henriques de Azevedo resolveu agregar a si um grupo de cidadãos com o fim de substituir a velha capela por outra mais apropriada a construir no monte. O povo de Sá da Bandeira e dos arredores não se sentiu satisfeito. Os madeirenses pretendiam imitar mais perfeitamente as tradições da sua terra. A capelinha não se podia avistar de longe, como a Senhora do Monte da Madeira. No Parque estava muito escondida. Queriam poder olha-la das suas casas. Desejavam que a Senhora do Monte os visse a trabalhar nos seus campos e contemplasse as suas sementeiras para as abençoar. Ansiavam viver permanentemente sob os olhos de Nossa Senhora do Monte.

Esta nova Comissão era constituída pelas seguintes entidades : Dr. Alfredo Lobo das Neves. Américo Manjericão, Emídio Fernandes, Francisco de Meireles, José Maria da Costa Simões. Luís Marques de Miranda e João Henriques de Azevedo, que logo entraram com 900$ cada um para as primeiras despesas a realizar.

João Henriques de Azevedo fez o projecto da actual capela, imitando a traça do templo de Nossa Senhora do Monte, na Madeira. Foi empreiteiro da obra Constantino Roumeliotis, que ergueu a actual ermida. O custo da obra elevou-se a 12.000$00, embora utilizando tijolo e madeira da antiga capela.

A nova ermida ainda em vias de acabamento foi solenemente benzida em 16 de Agosto de 1921, sendo o auto assinado por: Padre Manuel António Dourado, Gualdino da Paixão de Sousa. Casimiro Caldeira, Jaime Mendonça Caldeira, Manuel Joaquim Fernandes e António da Paixão de Sousa. Houve missa cantada pelo Padre Henrique Aucopt e sermão pregado pelo pároco Padre Dourado.

O terreno com a casa do local onde existira a antiga capela foi comprado por João Ricardo por 2 200$00.

Às festas do ano seguinte veio presidir o Vigário Geral da Chela, Padre Benedito Mário Bonnefoux, que celebrou missa solene, acolitado pelos Padres Pedro Topoaz e Manuel António Dourado.

Seguiram-se outras comissões que tomaram a seu cargo a celebração das Festas de Nossa Senhora do Monte, todos os anos. E foi a partir de 1930 que a imagem de Nossa Senhora do Monte, no dia 15 de Agosto, era trazida em procissão da sua capela para outra improvisada no Parque, pois tornava-se difícil a muitos devotos, já velhos, subirem a encosta do monte escalavrado.

Em 1931 tomou posse uma nova Comissão constituída pelos seguintes indivíduos: Padre Manuel António Dourado, Gualdino da Paixão de Sousa, Carlos Teixeira Velosa, Raul da Paixão de Sousa e Francisco Baptista. Formou-se ainda uma Comissão de Melhoramentos constituída pelas seguintes individualidades: Dr. Alfredo Lobo das Neves, Luís Marques de Miranda, Emídio Fernandes, capitão Rogério de Paiva Cardoso, João Henriques de Azevedo, Serafim Simões Nunes, Jaime Moreira de Vilhena, José Maria da Costa Simões, Casimiro Caldeira, Manuel Gonçalves Lavadinha e João Pereira do Rio. Pretendia esta Comissão de Melhoramentos rasgar uma estrada de quatro metros de largura até ao meio da encosta, seguida de uma escadaria até à capela, um coreto, bazar e bar, em estilo árabe-oriental com influencias portuguesas. O conjunto ficaria integrado no Parque de Nossa Senhora do Monte, cujo projecto foi realizado pelo Dr. Luís Miranda.

Foi ainda constituída uma comissão de senhoras que tomaram a seu cargo coadjuvar nos trabalhos de aformoseamento e de conservação da capela. Era formada pelas senhoras : D. Fernandina de Figueiredo, D. Olívia Simões Nunes, D. Maria Carolina Fernandes Simões, D. Judith Martins Braz e D. Maximina Fernandes.

Segundo o cronista que vimos seguindo, Zarco d'Almeirim, da Sociedade de Geografia de Lisboa, as Festas de Nossa Senhora do Monte, nos princípios da década de 1930 revestiam-se de grande imponência e a elas acorriam todos os anos muitos forasteiros de toda a Província de Angola.

Sá da Bandeira, elevada a cidade por Norton de Matos, em 1923, ia crescendo e expandindo-se. Tornava-se mais cosmopolita. As últimas comissões já se sentiam dominadas pelo desejo de urbanização. quando vislumbravam um Parque maravilhoso, que viesse lembrar o do Bom Jesus do Monte, em Braga. Entre 1919 e 1920, a Câmara Municipal abrira uma larga avenida, desde a cidade ate ao sopé do monte.

A certa altura a tradição das Festas de Nossa Senhora do Monte ia-se quase perdendo. Só alguns grupos de madeirenses teimavam em subir, todos os anos, em 15 de Agosto, até à sua capelinha, que continuou sendo a encarnação viva da saudade da sua terra distante, mas nunca esquecida. Depois da romagem piedosa, ficavam-se ali pelo Parque, meio selvagem, mas sempre belo, comendo os seus ranchos cozinhados à base de tradicionais pratos madeirenses. A romaria foi-se reduzindo a uma ténue chamazinha, que os velhos colonos teimavam em manter acesa e transmitir a filhos e netos em toda a sua pureza saudosa.

Mas, em 1952, um grupo de homens bons desta cidade tomou a peito a tarefa de fazer reviver com todo o brilho a antiga tradição.

A ténue chama teimosamente acesa transformou-se em fogueira que levou a sua luz a todas as terras de Angola. O seu entusiasmo comunicou-se à Câmara Municipal e encontrou valioso apoio e colaboração tanto do Município como do Governo do Distrito. Entidades oficiais e particulares deixaram-se empolgar pela ideia de fazer da romaria de Nossa Senhora do Monte as Festas da Cidade de Sá da Bandeira, imprimindo-lhes brilho e projecção que atraíssem forasteiros de toda a Província.

In: "Boletim Municipal da Câmara de Sá da Bandeira, 1971".

 

Sem pretensões de fazer história e apenas no propósito de recordar os acontecimentos de maior relevo na epopeia aqui levada a cabo, reproduzimos, em breve síntese, os dados colhidos nas obras de diversos historiadores de Angola, nomeadamente no trabalho do capitão Gastão de Sousa Dias intitulado "A Cidade de Sá da Bandeira" e publicado pela Câmara Municipal em 1957.

* Foi o capitão-mor de Benguela, Lopo Soares Lasso quem, no comando de uma expedição às regiões vizinhas das nascentes do rio Cunene, em 1627. estabeleceu os primeiros contactos com as terras e os povos do planalto da Huíla.

Primitiva Rua Pinheiro Chagas

* Em 1769 o governador de Angola, D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, promoveu a fundação da povoação a que deu o nome de ALBA NOVA da qual nasceu a actual povoação da Huíla. Foi nomeado seu primeiro capitão-mor António Rodrigues Algarve, e primeiro pároco da freguesia criada sob a invocação de Nossa Senhora das Lágrimas o capuchinho Gabriel de Braga.

* Passados anos, Alba Nova tinha-se desenvolvido em popu1ação e importância, sob o impulso dos governantes e graças ao esforço e trabalho dos pioneiros que iam devassando os sertões e estabelecendo com os nativos o trato e comércio de trocas que era então o principal meio e agente do povoamento.

* Em 1828, era regente de Alba Nova Felício Matos da Conceição e em 1837 ocupava esse posto o alferes João Francisco Garcia.

* Este mesmo João Garcia, já então tenente, comandou em 1838 uma expedição que, partindo de Benguela, seguiu por Quilengues, Huíla e Jau e atingiu o litoral em Angra do Negro, a actual Moçâmedes.

Pretendeu esse activo oficial em 1841, fazer a exploração das terras da Huíla. seguindo o trajecto de Moçâmedes a Caconda, mas não o conseguiu perante a hostilidade do soba huilano.

* Em 1845, o tenente Garcia, cujo nome, como se vê, tão ligado está à ocupação e desbravamento desta zona do sul, foi nomeado Regente da Huíla, subordinada ao Governador de Benguela e cujo povoamento sofreu grande impulso a partir desta época.

* Em 1850, por iniciativa do Marquês de Sá da Bandeira, é criado o Concelho da Huíla.

* No prosseguimento das tentativas de colonização do Planalto, as autoridades provinciais facultaram a vinda e instalação na Humpata, em 1880, de algumas centenas de boers, emigrados das suas terras, no sul, para fugirem ao domínio dos ingleses.

Ainda hoje se encontram na região da Humpata descendentes daqueles colonos, facilmente identificáveis pelas suas características fisionómicas.

* O facto mais assinalável e decisivo, o que pode considerar-se verdadeiramente a fundação de Sá da Bandeira, foram as expedições de madeirenses devidas à iniciativa do Ministro da Marinha e Ultramar Pinheiro Chagas, insigne escritor que igualmente se notabilizou na gerência da citada pasta.

O primeiro grupo de povoadores saído da Madeira em Outubro de 1884, desembarcou em Moçâmedes no mês seguinte. Penosamente, esforçadamente, mas animados pela esperança de alcançarem , nestas terras do Sul de Angola maior fortuna do que a desfrutada na sua terra natal, subiram a Serra da Chela e instalaram-se na Colónia de Sá da Bandeira, oficialmente criada para esse efeito e cuja direcção foi entregue a D. José da Câmara Leme, um dos homens de maior valor, pela sua inteligência e senso administrativo, que trabalharam nesta parte da Província.

Chegado ao planalto o segundo grupo dos colonos madeirenses, elaborou Câmara Leme e pôs em vigor, em 14 de Março de 1885, um "Regulamento Provisório para a Colónia de Sá da Bandeira, documento admirável de saber e tacto administrativo, espécie de Foral ou Posturas, onde se estabelecia a organização da Colónia, os deveres dos dirigentes, as atribuições do "Conselho Rural", os direitos e deveres dos povoadores, etc.

Atingidos, nesta compilação de factos huilanos, os tempos modernos, depara-se-nos a criação, por Decreto de 26/12/1889, do concelho do Lubango, cuja primeira Câmara Municipal foi nomeada em 1891.

* Passados 10 Anos o Governo criou, pelo Decreto de 2/9/1901, o distrito da Huíla, com sede em Sá da Bandeira, elevada à categoria de vila. Abrangia os concelhos do Lubango, Humpata, Huíla, Gambos e Humbe, estendendo-se para sul e leste até às regiões fronteiriças, respectivamente o Sudoeste Alemão e o Barotze.

* Em Setembro de 1917, o distrito da Huíla foi aumentado com a anexação dos territórios do litoral de Moçâmedes, ao mesmo tempo que se lhe retiravam as terras do Cunene, com que era formado o novo distrito do Cubango.

*Meses depois, em Janeiro de 1918, nova reorganização administrativa restabelecia o distrito de Moçâmedes e suprimia o do Cubango - situação que se manteve até 1935, data em que foi estabelecida a divisão de Angola em 5 Províncias, uma das quais, a Província da Huíla abrangia, além do distrito próprio, o de Moçâmedes e as vastas regiões de Quilengues, Caconda, Gambos, etc.

* Em 31 de Março de 1923, data em que se celebrou a chegada do Caminho de Ferro ao Lubango, foi esta vila elevada à categoria de Cidade, com o nome de SÁ DA BANDEIRA.

* Finalmente, em 5 de Julho de 1955 era promulgado o "Estatuto Político da Província de Angola" que repunha a divisão administrativa por distritos, restabelecendo o de Moçâmedes, mas mantendo a supressão do do Cubango, cujos territórios, constituindo a intendência do Baixo Cunene, continuavam a pertencer ao distrito da Huíla.

 

In: "Boletim Municipal da Câmara de Sá da Bandeira, 1971".